Potências 'voltam-se para dentro' em 2012

Quatro dos cinco países com veto na ONU terão eleições ou transições controladas

Roberto Simon, O Estado de S. Paulo

25 de dezembro de 2011 | 03h01

Uma rara coincidência pode alterar o jogo entre os pesos pesados da política internacional em 2012. Quatro dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU passarão no ano que vem por eleições livres, votações de cartas marcadas ou transições cuidadosamente orquestradas nos bastidores.

Dos poderosos da ONU - não por acaso, os detentores dos maiores arsenais nucleares do mundo -, só o premiê britânico, David Cameron, não precisa se preocupar com a possibilidade de fazer as malas e deixar o gabinete. Isso, claro, se sua coalizão em Westminster não desmoronar e ele for obrigado a antecipar as eleições.

A cena no fim do ano que vem pode ser a seguinte: um presidente eleito do Partido Republicano - Mitt Romney, por exemplo - pressionando para "levar a liberdade" a uma Síria em guerra civil ou ao Irã, enquanto o czar Vladimir Putin, em Moscou, o socialista François Hollande, em Paris, e o burocrata Xi Jinping, em Pequim, esbravejam em oposição.

Ou então Xi e Putin - sobre esses, não há muita dúvida de que estarão no poder no fim do ano - dispostos a enfrentar a expansão da influência americana na Ásia e na Europa Oriental, enquanto, na França, só resta ao gaullista Dominique de Villepin lamentar o fim do euro.

Em março, Putin deve ser coroado presidente em eleições controladas. Segundo a maior parte dos analistas, mesmo com os recentes protestos contra o "putinismo" e a perda relativa de poder de seu partido, o Rússia Unida - que acabou recebendo 50% das cadeiras do Parlamento -, tudo indica que ele conseguirá voltar ao poder por pelo menos mais seis anos.

O presidente Nicolas Sarkozy disputará uma eleição de dois turnos contra Hollande, que foi secretário-geral do Partido Socialista por 11 anos, e Villepin, ex-chanceler do governo Jacques Chirac. A primeira etapa da disputa será em abril e a segunda, em maio. Os dois grandes oponentes de Sarkozy criticam a forma como ele alinhou a França aos EUA e prometem mudança.

Única superpotência do mundo, os EUA escolherão no dia 6 de novembro entre Obama e o vencedor das primárias do Partido Republicano. O nome do oponente será conhecido no máximo até agosto, quando ocorre a convenção republicana.

E, em algum momento de 2012 - provavelmente em outubro -, o presidente chinês, Hu Jintao, deve transmitir o poder ao atual premiê, o enigmático Xi (a cadeira do primeiro-ministro será ocupada pelo advogado e economista Li Keqiang). Mais de dois terços do alto escalão da burocracia de Pequim também serão renovados ao longo de 2012.

Nos eixos. Muitos analistas temem que, preocupados com a política doméstica, os poderosos acabem jogando para suas respectivas torcidas quando o assunto for diplomacia.

Mas Robert Jervis, professor de relações internacionais da Universidade Columbia, de Nova York, relativiza o impacto que as disputas internas terão sobre os grandes eixos da política global - como a relação entre as duas maiores potências da atualidade, EUA e China.

"O alto escalão em Pequim vê o mundo, sobretudo a forma como lidar com os EUA, quase da mesma maneira. Não acredito que Xi trará uma mudança radical. E, do lado de cá, o próximo ocupante da Casa Branca será necessariamente guiado pelo pragmatismo", disse Jervis, em entrevista ao Estado.

Já a troca no Kremlin pode mudar - e para pior - as relações entre Moscou e Washington. "De modo geral, vimos que Putin é mais inclinado do que o atual presidente, Dmitri Medvedev, a ter uma posição negativa em quase todas as iniciativas (dos EUA e da Europa). Principalmente aquelas mais delicadas, como em relação ao Irã e ao mundo árabe", afirmou Svetlana Babaeva, comentarista política e chefe da sucursal da agência russa RIA-Novosti em Washington.

Medvedev deu fortes sinais de aproximação com os EUA: apoiou sanções contra o Irã na ONU e vetou a venda de mísseis S-300 a Teerã, assinou um acordo para reduzir arsenais nucleares, permitiu a passagem de tropas americanas rumo ao Afeganistão e reduziu a tensão com a Geórgia (o que lhe rendeu acesso à Organização Mundial do Comércio).

Para Svetlana, não há muita dúvida de que Putin voltará ao poder, mas ela diz que os recentes protestos na Rússia tornam o cenário mais turvo, pois a legitimidade de Putin foi abalada. Assim, a forma como o novo governo tratará as outras potências só deve ficar clara quando o próximo gabinete for montado.

Mas é a única superpotência que restou no mundo desde o fim da Guerra Fria, os EUA, que mais norteará a política internacional em 2012.

A pedido do Estado, o professor de Columbia elaborou uma lista de cinco prioridades de política externa que o vencedor das eleições de novembro terá de enfrentar. Sem estar organizadas em ordem de importância, elas são: a crise econômica, o futuro do Iraque após a retirada americana, a guerra no Afeganistão, como forjar uma nova relação com o Paquistão, como cuidar das tensões Israel-Irã, evitando a guerra e, simultaneamente, atrasando o programa nuclear iraniano.

E a Primavera Árabe? "Ela certamente será fundamental para em 2012. Mas não acredito que os EUA, ou qualquer outra potência, possam fazer alguma coisa para definir o curso dos eventos", disse Jervis.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.