Pouca disposição para diálogo projeta pessimismo para Unasul em Caracas

Divergência profunda. Missão do fórum regional chega à Venezuela nesta semana e deve encontrar uma oposição radicalizada na demanda de medidas contra a crise econômica e a criminalidade e um governo resistente a aceitar fazer concessões políticas

DENISE CHRISPIM MARIN , ENVIADA ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2014 | 02h03

Os chanceleres da União de Nações Sul-Americana (Unasul) devem encontrar pouca disposição - tanto por parte do governo da Venezuela quanto por parte da oposição - para o diálogo que pretendem intermediar na terça e na quarta-feira. Um lado acusa o outro de não se mostrar empenhado em assumir suas responsabilidades e ceder em favor de um consenso.

E um problema adicional tende a dificultar a missão - a divisão na frente oposicionista, concentrada na Mesa de Unidade Democrática (MUD).

"A oposição não tem uma liderança coerente e firme nem apresenta um projeto alternativo concreto ao do governo bolivariano", afirmou o analista político Erick Goicochea, cujas ideias são afinadas com o chavismo.

A liderança da MUD está ramificada, de fato. Há pelo menos dois grupos, que vão da esquerda moderada à direita radical, convivendo sob o mesmo teto. O primeiro, dos que se dispõem a aceitar o diálogo com condições, envolve os partidos Um Novo Tempo, Primeiro Justiça e Ação Democrática.

o segundo grupo, dos que insistem na tese da "saída" de Nicolás Maduro da presidência da Venezuela e se recusam a dialogar, estão os partidos Vontade Popular, Copei, Vente Venezuela, Movimento ao Socialismo e Aliança Bravo Povo.

Face mais emblemática dos protestos da oposição, Leopoldo López, do Vontade Popular (VP), está preso há mais de um mês em uma penitenciária militar. Os partidos do segundo grupo exigem que ele seja libertado, mas consideram o chamado ao diálogo uma ficção. A deputada María Corina Machado, do partido Vente Venezuela, tornou-se a sucessora de López nos protestos de rua e há tempos divulga as posições mais radicais da oposição. O prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, da Aliança Bravo Povo, não tem se exposto tanto como os colegas, mas é avesso ao diálogo.

Do outro lado, a prefeita de Maracaibo, Eveling Trejo de Rosales, do partido Um Novo Tempo, afirmou que pretende a "lei de gelo" da oposição sobre o governo e negociar sem precondições. Outros líderes mais abertos ao diálogo já fazem parte da Conferência Nacional de Paz, criada por Maduro para funcionar como um espaço oficial de diálogo entre governo, oposição, empresários e Igreja.

Henrique Capriles, governador de Miranda, do Primeiro Justiça, ensaiou nesta semana a adesão à Conferência, sob condições. Mas recuou depois da prisão de dois prefeitos da oposição, na quarta-feira. Candidato derrotado pelo ex-presidente Hugo Chávez nas eleições presidenciais de 2012 e por Maduro em 2013, Capriles tem sido o mais volátil dos oposicionistas desde o início dos protestos, em fevereiro.

Em um primeiro momento, desestimulou os protestos estudantis contra o governo e insistiu que a mudança deve ocorrer nas eleições. Quando as manifestações se tornaram mais fortes, aderiu a elas. Na quinta-feira, um dia depois de ter confirmado sua intenção de negociar com o governo, participou de uma marcha em Caracas contra a prisão dos prefeitos e defendeu o aumento da pressão sobre o Palácio de Miraflores, por meio de manifestações.

"Capriles não soube compreender o sentido dos protestos dos estudantes, que consolidaram a insatisfação acumulada desde o início de 2013 com o aumento da violência urbana, as políticas públicas fracas, o aumento da inflação e a escassez de produtos", afirmou o cientista político Omar Noria, que comparou o regime bolivariano às ditaduras militares do Cone Sul. "Ele é ambíguo. Mas trata-se de uma estratégia da oposição semelhante à do policial bom e policial mau . Ele faz o papel do bom policial", opinou Goicochea.

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