Povos do Oriente Médio foram criados para o confronto

O conflito entre árabes e israelenses é um dos principais elementos para definir o Oriente Médio contemporâneo e, em muitos aspectos, as sociedades nos dois lados são estruturadas para viver em confronto. Conseguir uma paz permanente na região exigiria profundas mudanças, que o diretor do programa de Estudos do Oriente Médio da Universidade Americana do Cairo (AUC, na sigla em inglês), Joel Beinin, diz que são difíceis e mesmo traumáticas para todos os lados envolvidos. ?Tanto israelenses como árabes têm suas sociedades construídas sobre uma situação de conflito. Atingir a paz com o inimigo externo pode acabar provocando conflitos internos em muitas delas?, diz Beinin, que há dois meses trocou a Universidade de Stanford, nos Estados Unidos (onde foi professor de história do Oriente Médio por dez anos), pela AUC, uma das universidades mais respeitadas do Egito e mesmo do mundo árabe. Nos Estados Unidos, críticos mais ferrenhos do pesquisador o acusam de ser um ?judeu que odeia judeus?. Atualmente Beinin está processando o escritor e ativista de direita americano David Horowitz por tê-lo colocado na capa de um panfleto intitulado ?Apoio ao terrorismo nos campi (de universidades americanas)?. Beinin diz que os ataques incomodam, mas afirma que nem nos Estados Unidos nem no Oriente Médio suas posições ou sua origem judaica chegam a prejudicar seriamente seu trabalho acadêmico ou seus contatos com outros pesquisadores. Israel ?Os egípcios, mais do que em outras áreas do Oriente Médio, entendem que há uma diferença entre judeus e Israel, entre cultura judaica e sionismo político. Embora, infelizmente, cada vez mais esta diferenciação esteja se apagando também aqui?, diz. Beinin diz que tanto nos países árabes como em Israel, as estruturas sociais estão montadas para viver em uma situação de conflito e este é um dos motivos para que as lideranças dos dois lados tenham medo de uma negociação séria de paz. ?Se Israel fizer a paz de fato com os árabes não vai fazer mais nenhum sentido o enorme poder que os militares têm na sociedade israelense ou os gastos realizados todos os anos com defesa?, diz. ?A sociedade vai querer mais atenção e mais recursos para outras áreas e cada vez mais gente vai começar a se perguntar o que aconteceu com o Estado de bem-estar social montado por Israel nos anos 50 e 60, hoje praticamente falido?, diz o professor. Árabes Entre os árabes, Beinin diz que o conflito com Israel justifica muitos dos abusos e práticas não democráticas dos governos da região. ?Se houvesse paz com Israel as pressões por mudanças dentro destas sociedades com certeza iriam crescer muito?, avalia o pesquisador. Beinin diz que, aos poucos, alguns países da região estão sentindo a necessidade de se adaptar e se preparar para a paz. ?Bashar al-Assad (presidente da Síria), por exemplo, parece dar sinais de perceber que tem que se adaptar se quiser sobreviver. Al-Assad já está promovendo uma abertura econômica e começa a aceitar a necessidade de negociar com Israel?, diz. O pesquisador observa que também no Egito o presidente Hosni Mubarak indicou o filho Gamal Mubarak para fazer contatos mais próximos com grandes empresários locais e estrangeiros e pensar em possíveis modernizações para o país. ?Sabemos que há figuras no governo Mubarak que são favoráveis a uma paz verdadeira dos países árabes com Israel porque acreditam que isso pode levar a uma modernização do próprio Egito. Mas também há claramente muitos que resistem?, diz Beinin. Democracia Para o professor, resolver o conflito entre israelenses e palestinos pode ser um importante passo para o desenvolvimento da democracia na região. Beinin diz acreditar que, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o governo americano tem um ?desejo? por democracia no Oriente Médio. ?No discurso dos presidentes americanos este desejo está sempre presente, mas na prática as ações dos Estados Unidos não contribuem em nada para que isto aconteça?, disse. ?A diferença em relação ao presidente Bush é que a promoção da democracia é a justificativa usada de maneira direta para as ações militares. Mas isso não signIfica que estejamos mais perto de sociedades democráticas no Iraque ou no Afeganistão?, diz.

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