Powell fala sobre raça, camisinha e Osama bin Laden

Conectados por satélite, jovens de todo o mundo tiveram uma conversa íntima com o secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, e fizeram perguntas picantes sobre camisinhas e por que certa vez ele disse: "Eu não sou tão negro". Powell destacou que sua pele é relativamente clara, mas disse que é negro o suficiente para ter sido expulso de lugares só para brancos quando crescia nos Estados Unidos na época da segregação racial. "Eu me considero um afro-americano, um negro", disse Powell durante a teleconferência promovida na quinta-feira pela MTV. "Enquanto executo meu trabalho, o que digo às pessoas é: ´Sou o secretário de Estado americano.´ Eu não digo ´Sou o secretário de Estado negro´, porque isto implicaria, ´Meu Deus, existe um branco em algum lugar?´". A questão racial foi uma das mais fáceis que Powell enfrentou diante de 260 jovens sentados em estúdios em Washington, Londres, Moscou, Cairo, Nova Délhi, Milão e São Paulo. As perguntas mais duras foram sobre aids, Iraque, Oriente Médio e a guerra contra o terrorismo. Ida Norheim-Hagtun, uma norueguesa de 19 anos que estava no estúdio em Londres, não amenizou as palavras ao perguntar a Powell: "Como você se sente representando um país geralmente percebido como o Satã da política contemporânea?" "Visto como o quê?" perguntou Powell. "Satã? Oh!" Recompondo-se, Powell respondeu: "Longe de ser o Grande Satã, diria que somos o Grande Protetor". Durante um intervalo comercial, Powell comentou: "Parece que estou numa audiência no Congresso", segundo Irene Schwoeffermann, 20 anos, que estava em Washington. Powell usou para o programa um terno escuro e gravata, com um pequeno broche da bandeira americana na lapela. Sua jovem audiência vestia no geral camiseta e jeans. Apesar do choque de vestimentas, Powell foi apresentado num vídeo de introdução da MTV como um construtor de alianças com uma visão do mundo em política externa presumivelmente próxima daquela de muitos jovens. Preparando-se para ouvir outra pergunta sobre diplomacia, ele acabou recebendo uma sobre camisinha, de Daniela Satori, 19 anos uma católica em Milão. Ele deu uma gargalhada antes de responder. "Eu certamente respeito a visão do Santo Padre e da Igreja Católica", disse Powell. "Na minha opinião, camisinha é uma forma de se evitar infecção, e desta forma, eu não apenas apoio seu uso, mas encorajo seu uso entre aqueles que são sexualmente ativos". Ao fazer tal comentário, Powell entrou em águas que a administração Bush tem evitado. Muitos oficiais de saúde do governo republicado defendem a abstinência sexual como parte da educação dos jovens, mas Bush nunca se declarou diretamente sobre o assunto. O porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer, afirmou que o presidente não fez objeções sobre o que Powell disse sobre camisinhas. "Há, com certeza, pessoas que serão sexualmente ativas não importando o quê o governo ou a família dizem sobre abstinência. A opinião do presidente é a de que ambos (camisinha e abstinência) devem ser destacados", afirmou Fleischer. A resposta de Powell provocou mais tarde objeções por parte de Gary Bauer, presidente do grupo conservador Valores Americanos. "Ele deveria se limitar à diplomacia, desde que ele não é a alta autoridade médica da administração", afirmou Bauer, considerando a camisinha "um remédio ruim" para os jovens. Powell, comentando sobre Osama bin Laden, afirmou que o dissidente saudita "assumiu o crédito, com orgulho, pela morte de quase 3 mil inocentes que estavam vivendo seu dia-a-dia, inocentes de 80 países... Se ele não é a pessoa responsável, por que ele não dá um passo à frente, se está vivo, e defende sua inocência?" Ele concordou que remédios contra a aids deveriam ser mais baratos para pacientes com HIV em países pobres, mas disse que a indústria farmacêutica não pode deixar de ser recompensada pelo dinheiro investido em pesquisa. "Tem de haver algum retorno no investimento que as companhias farmacêuticas fazem", considerou.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.