Powell não convence muitos na França

As revelações do secretário americano de Estado, Colin Powell, no Conselho de Segurança das Nações Unidas, definidas por analistas políticos franceses como "acadêmicas e pouco convincentes", não alteraram em nada a posição da França, hoje reafirmada por seu ministro do Exterior, Dominique de Villepin.Em entrevista à televisão francesa, De Villepin reafirmou que nenhuma prova concreta foi apresentada, apenas indícios, e que cabe ao Iraque cooperar mais estreitamente com os inspetores da ONU. A França não exclui nenhuma alternativa, nem mesmo o emprego da força, esgotadas todas as demais possibilidades. A seu ver, o Iraque deve orientar seus cientistas a prestar maior colaboração, afastando a suspeita de que eles não falam por temer por suas vidas e as de seus familiares.A tentativa de Powell não parece ter convencido muita gente na Europa, mesmo que dez países do Leste Europeu tenham emitido hoje um comunicado em apoio às posições de Washington, mais por razões de segurança e defesa, confiando mais no guarda-chuva americano e no da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) do que no europeu. "O perigo evidente e presente representado pelo regime de Saddam Hussein requer uma resposta unificada da comunidade de democracias", assinala o documento firmado por ex-países comunistas - Estônia, Letônia, Lituânia, Bulgária, Romênia, Eslovênia, Eslováquia, Croácia, Macedônia e Albânia.Também aliado dos EUA, o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, alertou hoje que as forças de seu país estão prontas para atacar o Iraque, mesmo que "um veto caprichoso e irracional bloqueie uma resolução da ONU" nesse sentido - numa óbvia referência à França, do presidente Jacques Chirac, que ameaça vetar uma proposta de intervenção militar. Na terça-feira, Blair visitou Chirac com a intenção de convencê-lo a suavizar sua oposição à guerra, mas sua missão foi um evidente fracasso.Já a dividida União Européia (UE) emitiu um comunicado, cerca de duas horas antes do pronunciamento de Powell na ONU, exigindo que o Iraque cumpra integralmente a Resolução 1.441 sobre desarmamento, cooperando plenamente com os inspetores de armas. O texto assinala que essa resolução deu ao governo iraquiano "uma oportunidade final para desarmar-se pacificamente". A posição formal da UE é a de que o Iraque tem de cooperar, e todos os esforços precisam ser empreendidos para uma saída pacífica.Amanhã, a reunião da Otan, em Bruxelas, será um novo teste para a divisão européia. Os 19 países-membros vão novamente discutir o pedido dos EUA, e agora também da Turquia, de que a aliança atlântica elabore um plano estratégico em apoio a um eventual ataque ao Iraque, especialmente na defesa do território turco. Em reuniões anteriores, Alemanha e França bloquearam a decisão.Guillaume Parmentier, analista do Instituto Francês de Relações Internacionais (IFRI), considera que mais importante do que o depoimento de Powell será o dia 14, quando o chefe dos inspetores, Hans Blix, apresentará seu segundo relatório. Até lá, o Iraque terá que cooperar com os inspetores, que poderão utilizar as indicações de Powell, indo aos sítios indicados pelo secretário de Estado.O jornalista especializado em armamentos Guillaume Bigot avalia que um ataque nada terá a ver com a existência ou não de armas químicas no Iraque e considera isso "manobra de dissimulação". Já o deputado do partido de Jacques Chirac, União pela Maioria Presidencial, Jacques Myard, tido como grande especialista do Iraque, disse sobre a fala de Powell: "Meu ceticismo sobre a ausência de provas se reforçou, o que os próprios americanos reconhecem." Segundo ele, os americanos têm encontrado dificuldades para convencer a opinião pública internacional, confundindo-a com a americana.

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