Powell quer encontro com Arafat

O secretário de Estado Colin Powell anunciou hoje, horas antes de deixar Washington para tentar a uma dificil mediação entre israelenses e palestinos, que pretende encontrar-se com o presidente da Autoridade Palestina, Yasser Arafat, "se as circunstâncias permitirem". Diante do apoio tácito que o presidente George W. Bush deu inicialmente ao ataque de Israel contra o quartel general de Arafat em Ramallah e a preocupação militar de várias cidades da Cisjordânia, antes de mudar de posição na última quinta-feira, o encontro entre Powell e o líder palestino tornou-se um teste de credibilidade dos EUA entre os palestinos e no mundo árabe em geral. "O encontro do secretário Powell com Arafat é absolutamente essencial, porque Arafat é o líder do povo palestino", afirmou ontem Hassan Abdel Rahman, o representante da AP nos Estados Unidos. Tendo autorizado o enviado especial americano, Anthony Zinni, a visitar Arafat, em seu confinamento forçado no que resta de seu antigo QG, o primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, informou ontem que a decisão de permitir ou não a visita de Powell teria que ser tomada em reunião de seu gabinete. Consciente dos enormes obstáculo que o aguardam, o secretário de Estado Colin Powell procurou minimizar as expectativas sobre o que poderá alcançar antes de partir para o que muitos especialistas consideram uma missão indispensável e praticamente impossível. "Não estou seguro nem mesmo se conseguirei um cessar-fogo", disse Powell no programa "Meet the Press", da NBC. Ele não fixou um prazo para a viagem, que começará com conversas com líderes árabes e europeus no Marrocos, Espanha e Egito. Assessores do secretário de Estado indicaram que sua chegada a Jerusalém deve acontecer mais perto do fim da semana. "Ficaria muito satisfeito se fôssemos capazes de ter um cessar-fogo num futuro não muito distante", disse o secretário de Estado. "Se conseguirmos reduzir a violência, se tivermos começado a criar um diálogo entre os dois lados, a viagem terá valido a energia que colocaremos nela e o esforço que faremos", disse ele numa outra entrevista, à rede Fox. A preocupação de Powell de antecipar o critério pelo qual espera que o sucesso da viagem seja julgada não resulta apenas a dificuldade da missão. Ela também resulta preocupação do chefe da diplomacia americana de proteger sua posição dentro do governo americano frente à ala mais conseravdora que convenceu Bush a endossar a ofensiva militar que Israel desencadeiou na Cisjordânia, há dez dias, em nome do combate ao terrorismo palestino. Um fracasso de Powell poderia fortalecer ainda mais a posição de duros como o vice-presidente Dick Cheney e o Secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, que querem ampliar a campanha dos EUA contra o terrorismo ao Iraque. Cheney recusou-se a estar com Arafat quando visitou a região, no mês pasado. O reinício dos ataques suicidas contra Israel, depois de uma reunião entre Powell e Arafat, deixaria o secretário de Estado numa posição muito difícil em Washington. Talvez por essa razão, Powell insistiu em uma demana americana que poderá ser usada para justificar uma decisão de não encontrar-se com Arafat. Ele pediu que Arafat fale condene os ataques suicidas contra Israel em discurso em árabe aos palestinos. Powell não esclareceu se esta é uma condição para seu encontro com o presidente da PA. Abdel Rahman, o embaixador palestino nos EUA, rechaçou ontem a demanda. "O presidente Arafat não pode pedir aos palestinos para não se defender contra uma ocupação ilegal que já dura mais de trinta anos e no momento em que enfrentam o constante terror dirigido contra ele por Israel", disse ele. "Vocês, nos EUA, celebram um herói da independência que disse ê-me a liberdade ou dê-me a morte?, há um estado aqui que tem como lema a frase em liberdade ou morrer?, mas não aceitam que nós palestinos façamos o mesmo na luta pela nossa independência", disse Abdel Rahman, referindo-se a Patrick Henry e ao estado de New Hampshire. Powell informou que conversou com Sharon ontem pela manhã para repetir o pedido que o líder israelense ouviu de Bush, em telefonema na noite do sábado, para que cesse de imediato a ofensiva na Cisjordânia e inicie sem demora a retirada das tropas. A conselheira de segurança da Casa Branca, Condoleezza Rice, disse à reded CBS Bush foi "muito franco"com Sharon. O enviado especial americano à região, Anthony Zinni, tinha encontro com o líder israelense ontem à noite para reiterar a mensagem. A ofensiva de ontem em Jenin mostrou que Sharon ignorou o pedido de Bush. "O presidente não dá ordens ao primeiro ministro de um país soberano", explicou o secretário de Estado. "Mas como um dos melhores amigos e defensores de Israel, penso que Sharon compreende claramente, leva a sério nossa mensagem", acrescentou. "Ele acelerará isso ( a ofensiva) e começará a retirada sem demora - o que significa, já"."O importante é começar agora, não quando o secretário Powell chegar à região, mas já", reforçou Rice. Perguntada sobre a dramática reorientação da política dos EUA na semana passada, de uma posição de apoio quase declarado à ofensiva "anti-terrorista" israelense a uma postura mais equilibrada, Rice deixou claro que a administração americana reconhece a gravidade do conflito e suas impolicações. Ela disse que Bush não considera Arafat um bom líder para os palestinos e repetiu que o presidente dos EUA compreende a necessidade de Israel de se defender contra atos terroristas. Mas afirmou, pela primeira vez, que discorda da maneira como Sharon está conduzindo sua campanha anti-terrorista "Os métodos que estão sendo usados não favorecem a busca de uma solução de longo prazo para o problema", disse Rice. "A dinâmica (em Israel e nos territórios palestinos) é terrível, os findamentos da paz na região estão em risco e a situação está num ponto em que ou se volta ao caminho de um acordo de paz ou entra-se numa espiral descendente".

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