Powell vai andar em terreno minado

O secretário de Estado americano, Colin Powell, deverá fazer uma viagem à Índia e ao Paquistão nos próximos dias. É natural: no jogo diplomático vertiginoso que os Estados Unidos conduzem desde o ataque do dia 11 de setembro, a região Índia/Paquistão é uma das mais explosivas. Os dois enormes países (o Paquistão tem 150 milhões de habitantes, e a Índia, mais de um bilhão) são resultado da divisão da antiga Índia britânica em 1947. Eles são violentamente inimigos. O Paquistão é muçulmano. A Índia é hinduísta, com uma minoria - cerca de 100 milhões - de muçulmanos. Um enfrentamento entre os dois mastodontes seria uma catástrofe. Os Estados Unidos, principalmente desde que os talebans (os islâmicos extremistas) dominam o Afeganistão, mostraram uma nítida preferência pela Índia. Mas os atentados do dia 11 de setembro em Nova York, com a inevitável conseqüência de uma ofensiva americana contra os talebans e Bin Laden, modificaram profundamente toda a trama diplomática americana. Na verdade, Washington compreendeu muito rapidamente que não poderia iniciar uma ação contra os talebans do Afeganistão sem a neutralidade e, se possível, a colaboração do Paquistão. Washington inverteu então seus hábitos e lançou uma ofensiva sedutora para o Paquistão. Com brio e sucesso. O presidente do Paquistão, o general Pervez Musharaf, optou por apostar no jogo americano por diversos motivos: em primeiro lugar, pilhas de dólares. Em seguida, o temperamento do general Musharaf, certamente muçulmano, mas moderado, democrata e pouco indulgente em relação aos exaltados do Taleban. Mas a dificuldade para o general Musharaf é que o Paquistão abriga grupos islâmicos ligados de corpo e alma aos talebans do Afeganistão. Essas organizações "islâmicas" radicais (tal como Jaisyh-e-Mohammed) encontram-se entre o povo pobre do Paquistão e, ao mesmo tempo, nos círculos mais altos da hierarquia militar. Além disso, ao mesmo tempo que o presidente Musharaf deu um apoio (aliás, condicional) às forças americanas, decretou uma "purgação" no exército do Paquistão. Essa purgação foi drástica: o general presidente Musharaf destituiu os principais dirigentes militares do Paquistão, aqueles do chamado "triunvirato islâmico": os generais Mahmoud Ahmad, Usmani e Aliz Khan. O chefe desse triunvirato, o general Mahmoud Ahmad é o mais inquietante: chefe dos "serviços especiais" (ISI), foi o verdadeiro "patrono" dos talebans. Imagina-se que pessoas tão poderosas como esses três generais não vão engolir sua derrota sem reagir. E para reagir dispõem de duas alavancas. A primeira alavanca é a cólera popular dos "islâmicos", que diariamente fomentam revoltas contra os americanos. A segunda alavanca é a Índia. Entre a Índia e o Paquistão, existe um litígio muito antigo a propósito de uma parte da Caxemira demandada pelo Paquistão. Nessa região, "rebeldes" paquistaneses conduzem uma guerrilha furiosa contra as forças indianas. Ora, essa guerrilha "islâmica" contra os indianos da Caxemira é realizada por paquistaneses apoiados pelos "serviços especiais" do general Mahmoud Ahmad, o mesmo que acaba de ser deposto pelo presidente Musharaf. Basta então incitar os "partidários" paquistaneses da Caxemira para que toda a região indo-paquistanesa seja desestabilizada. É o que acaba de acontecer: um atentado suicida na capital da Caxemira indiana, Srinagar, resultou em 38 mortos no dia 1º de outubro. Os indianos só puderam reagir violentamente. "A paciência da Índia tem limites", bradou Nova Délhi. Os americanos foram obrigados a acalmar os ânimos. Declararam que iam exercer uma vigilância maior sobre os grupos fundamentalistas do Paquistão. Por sua vez, essa ameaça dos americanos contrariou os paquistaneses. Assim, poucos dias após o presidente paquistanês Musharaf ter escolhido o campo pró-americano, a boa harmonia já se deparou com um obstáculo a propósito dessa questão nevrálgica que é a Caxemira. E há uma outra tensão entre os Estados Unidos e seu novo aliado paquistanês. É a sorte que está reservada, no futuro poder que será estabelecido no Afeganistão, uma vez caçados os talebans, para as tropas da "Aliança do Norte", ou seja, para os afegãos que lutam contra os talebans. Sem dúvida, os americanos não gostam das milícias da Aliança do Norte: são pessoas violentas, incontroláveis, brutalmente antiamericanistas e, às vezes, corruptas, mas detêm uma parte do território afegão, e não se vê como os americanos poderiam dispensar seu apoio quando chegarem às ofensivas terrestres. Ora, o Paquistão não consegue tolerar esses homens da Aliança do Norte. O general Musharaf declarou em alto e bom tom, na última terça-feira, que a Aliança do Norte "não estava preparada para desempenhar o menor papel no futuro do governo afegão". Washington não gostou nada. O secretário de Defesa americano, Donald Rumsfeld, fez uma colocação precisa sem meias-palavras: "Desejamos a vitória da Aliança do Norte. Gostaríamos de vê-la eliminar do país os talebans e a rede al-Qaeda de Bin Laden", declarou. Vê-se como a situação é instável, volátil nesse Paquistão que representa um elemento essencial na represália americana. O Departamento de Estado avança em um terreno minado: cada gesto deve ser dosado: se ele privilegia a Índia contra o Paquistão (ou faz o contrário), dá-se o incêndio. Se os Estados Unidos desdenharem a Aliança do Norte, eles vão privar-se ao mesmo tempo de um apoio estratégico essencial para a "reconquista". Enfim, se perderem o apoio do general Musharaf, é todo o seu sistema estratégico que vai tornar-se capenga. E no pano de fundo dessas acrobacias diplomáticas encontra-se a rua paquistanesa. A rua que grita. A rua que está cheia de "fundamentalistas". E se o Paquistão vier a ceder a seus "islâmicos extremistas", estaremos, então, diante de um inimigo ainda mais perigoso que os talebans do Afeganistão, pois o Paquistão é mais povoado, é bem mais poderoso. E o Paquistão possui a bomba atômica. Aliás, como a Índia. Perigo máximo. Leia o especial

Agencia Estado,

11 Outubro 2001 | 19h48

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.