PP veta investigação de denúncias pelo Parlamento espanhol

O bloqueio impede, por enquanto, que congressistas abram uma CPI e convoquem Rajoy para depor

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL / MADRI, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2013 | 02h07

Em uma manobra política, o Partido Popular (PP), o maior da base de sustentação do primeiro-ministro da Espanha, Mariano Rajoy, bloqueou ontem as tentativas feitas no Parlamento para abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) e de convocação do chefe de governo a depor.

O veto impede, ao menos por ora, que os congressistas investiguem as denúncias do "Caso Bárcenas", que indicam o pagamento de propinas a líderes do próprio PP, como Rajoy e o presidente de honra da sigla, José María Aznar, entre 1990 e 2008.

Ontem, o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), o principal da oposição, pediu formalmente o comparecimento do premiê ao congresso para explicar as suspeitas de que tenha recebido "doações" de empreiteiras do país no valor de € 25,2 mil anuais durante os anos 1990 e 2000. O "mensalão" seria pago com parte dos recursos supostamente colhidos pelo PP de empresas privadas, e operações não declaradas ao Fisco espanhol - o que configuraria o crime.

Os deputados também bloquearam o pedido de instauração de uma CPI destinada a investigar medidas de anistia fiscal tomadas pelos governos do PP - de Aznar e Rajoy -, além das suspeitas de lavagem de um total de € 11 milhões que teriam sido contabilizados em caixa 2 pelo tesoureiro do partido, Luis Bárcenas. Para impedir a apuração, o PP usou o peso político de sua maioria - 186 deputados de um total de 350 da Casa.

Essa maioria sólida, obtida nas eleições de 20 de novembro de 2011, garante por ora a sobrevivência de Rajoy no cargo e deve ser suficiente para assegurar que, mesmo diante de uma eventual queda do premiê, um novo líder conservador seja escolhido, sem necessidade de se convocar novas eleições.

Na segunda-feira, Rajoy chegou a admitir que "alguma coisa" era verdade nas denúncias, antes de se corrigir e reiterar que "tudo é absolutamente falso". Ontem, as declarações do premiê - encaradas como ato falho por alguns analistas - seguiram repercutindo no meio político. Para Óscar López, secretário de Organização do PSOE, a declaração foi calculada: "Rajoy não podia dizer, como disse no primeiro dia, que tudo era falso porque seria uma mentira. Por isso teve de modular e dizer que tudo era falso, salvo algumas coisas".

Jorge Trías, ex-deputado do PP, assinou ontem um artigo no jornal El País em que reconhece que os principais nomes da legenda recebiam pagamentos ilegais. "Eles tinham caixa 2. Não podem se esconder, nem mentir", disse Trías, que é amigo de Bárcenas, pivô do escândalo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.