Praça volta a ser palco de batalha entre policiais e manifestantes

Nove meses após queda de Mubarak, ativistas islâmicos e seculares retornam às ruas para exigir saída dos militares

CAIRO, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2011 | 03h03

Cenário de batalhas campais no fim de semana, a Praça Tahrir estava sob o domínio absoluto dos manifestantes ontem. Os confrontos concentravam-se nas ruas que ligam a praça ao prédio do Ministério do Interior, a um quilômetro dali. O Estado presenciou as sucessivas tentativas da polícia de dispersar os manifestantes na área, com bombas de gás lacrimogêneo, enquanto os jovens respondiam com pedras.

Nesse segundo tempo da revolução egípcia, o espectro dos manifestantes é tão vasto quanto em janeiro e fevereiro, quando da queda de Hosni Mubarak: vai de universitários liberais e seculares até os salafistas, radicais islâmicos facilmente identificáveis por suas barbas longas e túnicas. Apesar de pertencerem a correntes diferentes, eles se mostram unidos na rejeição aos militares.

"Estou aqui para exigir a transferência do poder dos militares para um conselho civil depois das eleições parlamentares", disse Mohamed Abdel-Aal, comerciante de 40 anos membro do Grupo Islâmico, considerado terrorista pelo regime Mubarak e pelo Ocidente, que luta há décadas para substituir a ditadura por um regime islâmico.

"Quero que o conselho militar deixe o poder", declarou o jornalista Nabil Kadry, editor do jornal Al-Nur, do partido salafista de mesmo nome. À pergunta sobre se deseja a criação de um Estado islâmico, ele respondeu que o Egito "já é um Estado islâmico, com uma minoria cristã que vive no país há 1.400 anos, quando o islamismo chegou". "Somos uma só nação", disse.

De véu e vestido de mangas longas, Aiman al-Mahdi, de 60 anos, caminhava pela praça com a filha Dina, de 25. "Estamos aqui para pedir a transferência do poder dos militares para um conselho civil", disseram. "Não queremos o marechal Tantawi no governo, mas alguém que sinta nossos problemas. Achamos que o regime de Mubarak continua, que nada mudou."

"As eleições são uma ferramenta para os civis restaurarem o regime. Não são um fim em si mesmas, são um meio", disse Mohamed Tareq, de 32 anos, que trabalha em uma empresa estatal e apoia Mohamed ElBaradei, ex-secretário-geral da Agência Internacional de Energia Atômica e aspirante à presidência. "Restaurar o regime civil é mais importante do que as eleições parlamentares."

"Estou aqui porque a revolução não está concluída e para apoiar as pessoas que morreram nos últimos dias", afirmou Abdel Monem Emam, de 24 anos, um dos fundadores do partido secular Al-Adel (Justiça) e funcionário de uma empresa de petróleo.

"A questão, agora, não são as eleições. Primeiro, precisamos lançar as bases do país, depois podemos falar de eleição. A questão é a dignidade dos cidadãos e as regras sob as quais governaremos o Egito", disse. / L.S.

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