Pragmatismo aproxima acordo nuclear com Irã

Desde o início das negociações internacionais sobre os rumos de seu programa nuclear, o Irã exigia um reconhecimento explícito de seu direito de enriquecer urânio, algo que os Estados Unidos recusavam-se a fazer. Ao longo de quase uma década, os dois lados permaneceram irredutíveis. A situação persistiu até o último domingo, quando o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, saiu a público para informar que seu país não vê mais a necessidade de as potências com as quais negocia o futuro de seu programa nuclear reconhecerem explicitamente o direito ao enriquecimento de urânio, pois considera que isso já está claro no Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP).

AE, Agência Estado

19 de novembro de 2013 | 15h26

Trata-se de nova mostra da abordagem mais pragmática do governo do Irã, empossado em agosto. O inesperado abandono da exigência ocorreu apenas alguns dias antes de uma nova rodada de negociações com representantes de Alemanha, China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia em Genebra. Com isso, quando as delegações voltarem a conversar, a partir de amanhã, terão uma questão secundária a menos para tratar e poderão se concentrar em assuntos mais práticos.

O enriquecimento de urânio é um processo essencial para a geração de combustível usado no funcionamento das usinas nucleares. Em grande escala, o urânio enriquecido pode ser usado para carregar ogivas atômicas.

Os Estados Unidos e seus aliados apontam para o fato de, no início, o Irã ter tentado ocultar as atividades de enriquecimento de urânio e acusam o país de manter em segredo um programa nuclear bélico.

O Irã nega ter interesse na bomba atômica e sustenta que seu programa nuclear é civil e tem finalidades pacíficas, como a geração de energia elétrica e o desenvolvimento de isótopos medicinais, o que está de acordo com as normas do TNP.

Semanas depois de sua posse, o novo presidente do Irã, Hassan Rohani, chegou a condicionar qualquer acordo ao reconhecimento do direito iraniano de enriquecer urânio, mas os recentes avanços nas negociações aparentemente reordenaram as prioridades.

A nova postura causou surpresa. Observadores consideram improvável que o Irã venha em algum momento a abrir mão completamente desse processo, mas a retirada da exigência tende a abrir caminho para que se discuta algo mais caro aos iranianos no momento: o alívio das sanções internacionais que aos poucos sufocam a economia do país.

"Trata-se de um desdobramento significativo. Representa uma importante concessão por parte do Irã e abre caminho para superar um obstáculo considerável a um acordo", disse à Associated Press o ex-diplomata norte-americano Mark Fitzpatrick. É improvável que a concessão tenha sido feita sem o aval do líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, mas Fitzpatrick adverte para a possibilidade de isso descontentar os setores mais conservadores do mainstream político iraniano.

Ao mesmo tempo, com a ausência de um tema que por anos emperrou as negociações, outras questões ficam mais expostas agora. No fim de semana, em visita a Israel, o presidente da França, François Hollande, apresentou uma série de exigências a Teerã.

"A primeira exigência: colocar todas as instalações nucleares iranianas sob supervisão internacional; imediatamente. Segundo ponto: suspender o enriquecimento de urânio a 20%. Terceiro: reduzir o estoque existente. Por fim, parar a construção da usina (de água pesada) de Arak", declarou Hollande no domingo.

Segundo a agência semioficial de notícias Mehr, um grupo de deputados iranianos já trabalha em projeto de lei com o objetivo de proibir o governo de fazer concessões sobre esses temas.

O Irã e seus interlocutores voltarão a se reunir amanhã à noite em Genebra. A expectativa é que os contatos prossigam até a sexta-feira. Resta saber se o tempo será suficiente para superar as divergências e estabelecer as bases de um acordo que atenda às preocupações de todos os envolvidos e possa ser implementado nos próximos meses. (Ricardo Gozzi, com informações da Associated Press)

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