Pragmatismo deve levar Obama para o centro no 2º mandato

Cenário: Peter Baker / NYT

O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2012 | 02h01

O presidente Barack Obama obteve a sua segunda chance. No entanto, o eleitorado que acha que o país está no caminho errado concordou na terça-feira em renovar o seu contrato, na esperança de que os próximos quatro anos sejam melhores do que os que agora se encerram.

O presidente, cansado mas triunfante, subiu ao palco em Chicago, na madrugada de ontem, diante de uma multidão que o aclamava, claramente aliviado por ter sobrevivido a um desafio que ameaçava acabar com sua carreira política tão repentina. Enquanto falava aos Estados Unidos, podia perfeitamente estar falando para si mesmo ao afirmar aos partidários: "Nós demos a volta por cima. Lutamos e conseguimos nos recuperar."

Obama sai de uma campanha acirrada e de um aprendizado de quatro anos sobre as realidades de Washington como uma personalidade muito diferente do homem que foi conduzido à Casa Branca em 2008. O que o espera neste próximo estágio de sua jornada não são as expectativas exageradas de que conseguiria solucionar os problemas partidários, raciais e globais, mas negociações infinitamente detalhadas sobre cortes de gastos e aumentos de impostos, além de um confronto aparentemente iminente com o Irã.

Poucos preveem que ele mudará de fato a política em Washington. A maioria dos eleitores parecia querer que ele a fizesse funcionar. Agora, sua notável história pessoal e seu papel de pioneiro são apenas um vago pano de fundo para uma campanha que, muitas vezes, parecia carecer de uma missão singular, determinante, além de impedir que seu adversário levasse o país em outra direção.

Mais amadurecido e marcado pelas batalhas, menos propenso à grandiosidade e talvez mesmo menos idealista, Obama retorna para um segundo mandato com um Congresso ainda, pelo menos em parte, controlado por um partido de oposição que reclamará uma agenda própria.

Ele terá de escolher entre a conciliação e o confronto ou encontrar um caminho que lhe permita encontrar um espaço de manobra entre os dois. "Ele se mostrará mais combativo e mais disposto a agir de maneira destemida nas questões internas, nas nomeações sábias e assim por diante?", questionou Christopher Edley Jr., diretor da Faculdade de Direito da Universidade da Califórnia, em Berkeley. "Você pode reagir a uma vitória apertada içando as velas ou decidir: 'que diabo, vamos navegar e enfrentar a tempestade.'"

As garrafas de champanhe para a comemoração da vitória em Chicago mal serão esvaziadas antes que Obama comece a responder às perguntas. O "abismo fiscal" no final do ano, que levou a aumentos automáticos de impostos no valor de trilhões de dólares e a cortes de gastos, poderá obrigar Obama a definir prioridades que modificarão o que resta da sua presidência antes que ele ponha a mão sobre a Bíblia para prestar o seu juramento pela segunda vez.

"Ele precisa fazer algo drástico para restabelecer a atmosfera e demonstrar de maneira dramática que ele fala seriamente em encontrar soluções bipartidárias", disse David Boren, um ex-senador que agora é o presidente da Universidade de Oklahoma e é um dos presidentes do conselho de assessores do presidente na área de inteligência. Boren sugeriu que Obama nomeie "um gabinete de unidade" reunindo republicanos e democratas.

"Se você não colocar ninguém no conselho, morrerá mais depressa", afirmou Patrick Griffin, que foi o elemento de ligação do presidente Bill Clinton com o Congresso. Tudo isso parecia distante milhares de quilômetros na noite de terça-feira em Chicago. Depois de todos os debates, da propaganda pela TV e dos comícios, Obama e sua equipe só queriam saborear aquele momento.

Antes mesmo de se tornar presidente, a certa altura, Obama temeu por sua ascensão meteórica e disse aos seus assessores que não queria ser "como um cometa que risca o céu", porque "os cometas acabam se queimando". Por enquanto, o cometa continua sua trajetória pelo firmamento. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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