Pragmatismo deverá marcar cúpula

Se os fatos confirmarem as intenções, para analistas, esta semana pode iniciar o fim de uma era de ideologias

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

11 de abril de 2009 | 00h00

"Chegou a hora de os EUA dialogarem com Cuba." A frase é da deputada democrata Barbara Lee - que se encontrou na semana passada com o líder cubano Fidel Castro em Havana - e reflete o clima que embala a participação americana na Cúpula das Américas, que começa na sexta-feira, em Trinidad e Tobago.Se os fatos confirmarem as intenções, analistas dizem que esta semana pode marcar um primeiro passo da substituição de uma longa era de ideologias pelo império do pragmatismo prometido pelo presidente dos EUA, Barack Obama. A prova é a frase - inconcebível até o ano passado - com a qual Fidel recebeu Barbara, segundo uma deputada que a acompanhava: "Como podemos ajudar Obama?"Segundo fontes de Washington, antes da cúpula, o presidente dos EUA anunciará o fim das restrições às visitas de cubano-americanos à ilha. Ele também liberará as remessas de dinheiro de cubanos para seus parentes (hoje restrita a US$ 300 por trimestre), beneficiando 1,5 milhão de pessoas nos EUA e outras milhares em Cuba. Tais medidas seriam um gesto de boa vontade para com os países da América Latina - que vêm pedindo o fim das restrições à ilha - e uma prova de que os EUA estão dispostos a dialogar com o eixo antiamericano, que inclui ainda Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua.No mês passado, Obama sancionou uma lei que amplia para uma vez por ano a frequência permitida para as viagens de cubano-americanos à ilha (durante o governo Bush esse limite era de uma vez a cada três anos) e aumenta a quantidade de dinheiro que eles podem gastar lá - de US$ 50 para US$ 179 por dia. Agora, está sendo discutido no Senado americano uma nova lei permitindo que todos os cidadãos dos EUA possam visitar Cuba. "Não faria mesmo sentido permitir que alguns americanos tenham direito de visitar a ilha quando quiserem e outros não", diz Philip Peters, especialista em Cuba do Lexington Institute, nos EUA.Ele ressalva que, para permitir as viagens sem restrições, Obama precisaria do aval do Congresso. "E aí vem o porém da história, pois é difícil prever o tamanho da resistência que esse projeto pode ter no Legislativo ainda que o presidente o apoie publicamente."O turismo é a atividade que mais aporta divisas estrangeiras a Cuba. São cerca de US$ 2 bilhões anuais - mais que as exportações de níquel, tabaco e açúcar juntas. O número de visitantes é de 2,3 milhões e calcula-se que, no caso da total liberalização, possa aumentar em 1 milhão no primeiro ano e até em 3 milhões nos anos seguintes.O avanço da flexibilização das restrições a Cuba deve depender de como Havana responderá ao gesto unilateral dos EUA de reduzir as restrições às viagens e remessas (hoje estimadas em US$ 800 milhões).ABERTURAAté agora, o governo cubano não tem demonstrado disposição em promover uma abertura política e é difícil prever se conseguiria - ou mesmo desejaria - fazer no campo econômico mudanças tão significativas que contentassem não só a Casa Branca, mas também os congressistas americanos. A questão é que Obama até pode criar exceções nas proibições ao comércio com a ilha, mas o levantamento completo do embargo depende do Congresso. Peters, do Lexington Institute, diz que o apoio ao fim das sanções a Cuba está aumentando entre a opinião pública americana com a percepção de que tais restrições têm sido incapazes de enfraquecer o governo de Fidel e Raúl Castro. "Bush aumentou as restrições às viagens e às remessas e em sua gestão e não só o governo cubano permaneceu inalterado, como o bloco antiamericano se fortaleceu", diz Peters.FRASESPhilip PetersEspecialista em Cuba do Lexington Institute"Bush aumentou as restrições às viagens e às remessas em sua gestão e não só o governo cubano permaneceu inalterado como o bloco antiamericano se fortaleceu""Não faria mesmo sentido permitir que alguns americanos tenham o direito de visitar a ilha quando quiserem e outros não""É difícil prever o tamanho da resistência que esse projeto pode ter no Legislativo, ainda que o presidente o apoie publicamente"

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