Capítulo 10

Pragmatismo vence ideologia

Bolsonaro recorre à tradição diplomática brasileira para deixar G-20 com um triunfo

Beatriz Bulla, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2019 | 21h35

Caro leitor,

O presidente Jair Bolsonaro desembarcou no Japão com o pé esquerdo. Atacado por europeus por sua política ambiental e confrontado com a prisão, na véspera, de um sargento com 39 quilos de cocaína no avião oficial, ele chegou irritado. Em dois minutos de entrevista, disparou contra a chanceler alemã, Angela Merkel, e a imprensa. Deixou com os pés atrás investidores que tinham acompanhado sua estreia internacional, em Davos. A 9 mil quilômetros dali, em Bruxelas, o governo brasileiro tentava tirar do papel o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia.

Bolsonaro precisou se esforçar. Os europeus deixaram claro que o pacto só daria certo diante do compromisso de Bolsonaro com as questões ambientais. Nos corredores de Osaka, o brasileiro se reuniu com Merkel e com o francês Emmanuel Macron, para mostrar empenho. Passou confiança e o acordo veio. E, junto, Bolsonaro faturou as glórias da negociação iniciada há 20 anos, retomada no governo Temer e apressada pela Comissão Europeia.

O maior significado político do acordo UE-Mercosul, escreve Celso Ming, é ter saído no momento em que o governo de Donald Trump desconstrói acordos de comércio. A cúpula do G-20 foi encerrada com um texto que reafirma o apoio ao livre-comércio e demonstra preocupação com o impacto das tensões comerciais no crescimento global. É um recado ao rompimento de Trump com o sistema multilateral. A retórica nacionalista de Bolsonaro converge com a do americano, único líder com quem, por sinal, o presidente brasileiro se sentiu à vontade no Japão. 

Não foram poucas as críticas de Bolsonaro ao Mercosul. Mas, na prática, “falaram mais alto o pragmatismo e a disposição pelo liberalismo econômico” do que o discurso antiglobalista, escreve Vera Magalhães. E Bolsonaro, seja por ter sido convencido ou ter "evoluído", dançou conforme a música. O texto lido pelo brasileiro, no fim da cúpula, defendeu o multilateralismo e as regras da OMC, descartando o rascunho que continha o viés ideológico de Olavo de Carvalho.  

O trabalho começa, e não se esgota, em Osaka. Nesta coluna, Cida Damasco se refere ao acordo como um gol político do governo, entre tropeços de uma diplomacia contaminada pela ideologia, mas destaca que a boa imagem do País ainda está no “modo teste”. Eliane Cantanhêde analisa que G-20 e a parceria UE-Mercosul abrem uma nova fase, se presidente parar com “show de besteiras”.

No fim da cúpula, já de malas cheias com a sensação de dever cumprido e com um colar de nióbio de US$ 1 mil, Bolsonaro se deu por satisfeito e cancelou o último compromisso: a reunião requisitada por Xi Jinping, líder da China, maior parceiro comercial do Brasil. O presidente não teve paciência para esperar 20 minutos pelo chinês, que estava atrasado. Dizem que, de todas, foi esta a decisão que Steve Bannon mais aplaudiu. 

Beatriz Bulla

Beatriz Bulla

Correspondente em Washington (EUA)

Formada em jornalismo e em direito, entrou no Estadão em 2011 para o curso de Focas e ficou. Cobriu economia, política e justiça em São Paulo e Brasília antes de trocar a Lava Jato na capital federal pela capital americana. Vive de olho na relação entre o Brasil e os EUA.

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