Pratini confia em revisão antecipada de decisão americana

O ministro da Agricultura, Marcus Vinícius Pratini de Morais, disse nesta segunda-feira que saiu de um encontro com sua colega americana, Ann Veneman, "com confiança de que os Estados Unidos farão uma revisão antecipada" da ordem de suspender as importações de produtos de carne do Brasil. A ordem foi anunciada por Washington na noite de sexta-feira passada, seguindo decisão tomada horas antes pelo Canadá, que alegou existir um "risco teórico" de contaminação do rebanho bovino brasileiro pela BSE, a doença da "vaca louca". O período normal de revisão de tais decisões é de seis a oito semanas. "A secretária Veneman teve um encontro muito cordial com o ministro, e ambos se comprometeram a trabalhar juntos para resolver essa questão da forma mais rápida possível", disse o porta-voz do departamento de Agricultura, Kevin Herglotz. "O ministro trouxe algumas informações adicionais, que nossos técnicos já estão examinando, para completar a análise de risco, e queremos ver o assunto resolvido o quanto antes." Pratini disse que registrou com Veneman o protesto do Brasil diante da medida. "Manifestei a ela com toda clareza a nossa surpresa e também a nossa indignação com uma decisão tomada com base apenas num risco teórico" de que o gado brasileiro poderia ser contaminado com a BSE, que dizimou a pecuária européia na década passada e já matou perto de 90 pessoas. "Na história das nações civilizadas, nós desconhecemos uma decisão tão drástica de suspender importação apenas em função de um risco teórico", afirmou o ministro. "Risco técnico de BSE não existe em nosso País pela pura e simples razão de que no Brasil o gado é herbívoro e não carnívoro e até canibal, como ocorre no hemisfério norte". Uma das formas comprovadas de transmissão da BSE é através de rações com carne contaminada. Segundo o ministro, o Brasil começou a banir a importação de gado vivo da Europa em 1990, ampliou a decisão a produtos carnosos entre 1995 e 1997 e está estudando a possibilidade de proibir a entrada de lácteos europeus no País. Pratini informou que nos últimos dez anos o ministério registrou 2904 casos de gado com suspeita de problemas cerebrais. "Abatemos, examinamos os cérebros de todos eles e não constatamos nenhum caso de BSE", informou Pratini. "A maioria tinha raiva transmitida por morcegos", disse. "Mas sabemos que no Canadá já houve um caso de BSE." Embora tenha declarado a Veneman sua surpresa diante da suspensão das importações da carne brasileira, Pratini deixou claro, durante uma entrevista coletiva na embaixada do Brasil, que considera a ação canadense uma decisão politicamente motivada para prejudicar a pecuária brasileira. "Isso não me supreende nenhum pouco", afirmou o ministro."Eu estou há muitos anos envolvido nessa questão do comércio internacional, e cada vez que o Brasil põe a cabeça à flor d´água, vem pau em cima", continuou. "Foi assim no café solúvel, foi assim com os calçados, foi assim com o aço, tem sido assim com a laranja e agora querem fazer o mesmo com a carne, porque sabem que o Brasil é o país mais competitivo e o melhor produtor de carne do mundo", afirmou. "É impossível bater os custos brasileiros e a qualidade brasileira na produção de carne; de modo que isso é uma briga de mercado, que temos que encarar com a naturalidade de uma nação que está em busca de abrir mercados e tem que enfrentar uma competição que muitas vezes usa governos para alcançar seus objetivos." A seqüência de eventos que levou à suspensão das importações de carne brasileira nos Estados Unidos, a partir da decisão canadense, parece respaldar a tese de Pratini. Segundo fontes bem informadas, não foi o governo canadense que alertou Washington sobre o problema potencial com a carne brasileira, que ambos reconheceram não existir, nas notas oficiais nas quais se anunciou o banimento temporário das importações. A informação partiu da Canadian Meat Council, ou seja, a associação dos exportadores de carne. Na sexta-feira, o Council avisou o American Meat Institute e a National Cattlesmen Association sobre a decisão de Ottawa, e estes pressionaram o Ministério da Agricultura dos EUA a agir. Pratini disse que não pediu explicação a Veneman sobre a decisão. "Minha missão aqui foi trazer informação sobre qualidade e sanidade do rebanho brasileiro e nossa inconformidade com essa decisão." O ministro descontou a relevância do questionáro que o governo canadense alega ter entregue em 1998 pedindo informações sobre os procedimentos brasileiros para evitar a contaminação pelo BSE. "Esse questionário deve ter sido entregue por um funcionário do quarto escalão da embaixada do Canadá a um funcionário do quarto escalão do ministério da Agricultura", disse o ministro. "Nos meus 18 meses no ministério, encontrei-me cinco vezes com o ministro da Agricultura do Canadá e ele não levantou esse assunto comigo uma única vez." Perguntado sobre uma eventual reação brasileira, Pratini disse que a decisão está sendo coordenada pelo Itamaraty. Mas não escondeu sua exasperação. "Isso não vai ficar assim", disse. "Não quero me pronunciar em nome do governo sobre a ALCA, mas minha opinião pessoal é que fica muito difícil seguir com uma negociação quando um dos principais parceiros da ALCA patrocina uma medida dessa natureza", afirmou.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.