Prazo expira e ameaça a paz em Israel

Moratória da expansão de colônias termina hoje e palestinos ameaçam se retirar das negociações caso medida não seja prorrogada

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2010 | 00h00

O congelamento de novas construções nos assentamentos israelenses na Cisjordânia termina hoje e, até a noite de ontem, ninguém em Washington, Nova York, Jerusalém e Ramallah sabia se a moratória seria prorrogada ou não. O premiê de Israel, Binyamin "Bibi" Netanyahu, se reunirá com seu gabinete à tarde para divulgar sua posição final.

Oficialmente, o premiê já deixou claro que não estenderá o congelamento, iniciado há dez meses. Caso mantenha a posição, os palestinos ameaçam deixar as negociações, retomadas no início do mês. Para complicar, além dos esforços de paz entrarem em colapso, a violência tende a crescer em Israel e nos territórios ocupados, segundo afirmou, neste fim de semana, o chefe das Forças Armadas de Israel, Gabi Ashkenazi.

A secretária de Estados dos EUA, Hillary Clinton, e o enviado especial dos EUA ao Oriente Médio, George Mitchell, intensificaram as negociações em Nova York no fim de semana para encontrar uma saída para o impasse. Em seu discurso na Assembleia-Geral da ONU ontem, o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, disse que os palestinos estão prontos para um acordo justo e abrangente, mas que Israel deve escolher entre paz e a construção de novos assentamentos.

Nesta semana, o presidente Barack Obama disse na ONU que a posição americana é conhecida. "Achamos que a moratória deva ser prorrogada", afirmou. Líderes de outros países, incluindo o Brasil, também disseram que o congelamento nos assentamentos deveria ser estendido.

Com mais três meses de moratória, segundo diplomatas envolvidos nas negociações, israelenses e palestinos poderiam avançar na definição das fronteiras de um futuro Estado. Neste caso, ao fim do novo prazo já seria possível saber quais colônias ficariam do lado israelense em um acordo de paz. Segundo analistas, o mais provável é que Israel mantenha os principais blocos de assentamentos em qualquer solução final para o conflito.

Quatro saídas são estudadas para superar o impasse. A primeira, defendida por palestinos e americanos, propõe a prorrogação da moratória até o fim do ano. A segunda, proposta por Bibi, prevê a retomadas das construções apenas nos assentamentos maiores, que ficariam com Israel de qualquer maneira no fim do processo.

Os egípcios sugeriram um congelamento silencioso, no qual Netanyahu não faria um anúncio formal para não irritar seus aliados conservadores, ligados aos colonos. A quarta alternativa pretende bloquear as novas construções por meio de saídas legais, na Justiça israelense.

Diplomatas dizem que o problema não é Netanyahu, mas sua coalizão. Bibi enfrenta enorme pressão interna para suspender o congelamento. Membros de seu governo ameaçam deixá-lo se ele aceitar a prorrogação.

O ex-premiê de Israel Ehud Olmert, que esteve próximo de um acordo com os palestinos, afirmou no diário Jerusalem Post que nenhum dos lados têm como ceder. "Se Netanyahu anunciar a extensão do congelamento, ele colocará em risco a estabilidade de seu governo antes de as negociações terem atingido um patamar importante. Se Abbas concordar em negociar com a moratória cancelada, ficará vulnerável a pressões extremas na comunidade palestina", disse Barak.

Aluf Benn, analista político israelense, discorda. Na avaliação dele, Bibi não pode esperar. Seu status político está no auge e ele deve aproveitar a oportunidade para embarcar no processo de paz. Ele precisa assumir riscos. Se tentar agradar a todos, acabará vendo seu governo ruir. Roger Cohen, colunista do New York Times, segue na mesma linha. "Israel não encontrará interlocutores mais moderados do que Abbas e o premiê palestino, Salam Fayyad", diz.

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