Prazo vago expõe política para o Irã

Agora que Barack Obama estabeleceu o que chamou de "cronograma claro" para o Irã encerrar seu programa nuclear - "progressos precisam ser feitos até o fim do ano", disse o presidente na segunda-feira -, tanto autoridades americanas como israelenses começam a estudar como atingir esse objetivo. Mas mesmo após a visita de Binyamin Netanyahu à Casa Branca, na segunda-feira, parece claro que os dois lados ainda não concordaram nem sequer na questão básica de quanto tempo resta para impedir o Irã de obter a capacidade de produzir armas nucleares.Começa agora a corrida diplomática de Obama. A declaração dada na segunda-feira, de que não vai "dialogar para sempre com o Irã", foi uma advertência a Teerã de que sua abordagem diferente - um sério engajamento pela primeira vez em três décadas - deve dar resultados antes que o Irã supere os últimos obstáculos tecnológicos para construir uma arma nuclear. É uma estratégia que abrange uma combinação de negociações diretas, garantias de que Washington não pretende mais mudar o regime no Irã e um esforço para persuadir os aiatolás de que - se não cederem - haverá consequências dolorosas: sanções internacionais mais duras e aplicadas com mais rigor do que as impostas até agora pelo Conselho de Segurança da ONU. "Há três corridas diferentes aqui", disse um dos estrategistas de Obama. "Corremos para fazer progressos diplomáticos. Os iranianos correm para tornar sua capacidade nuclear um fato consumado. E os israelenses, é claro, correm para apresentar uma alternativa militar convincente que possa atrasar o programa iraniano."Pela interpretação americana, o Irã pode atingir a capacidade de construir uma bomba entre 2010 e 2015 - uma janela aberta até bem depois do prazo aproximado de Obama para mostrar que as negociações estão funcionando. O brigadeiro Michael Herzog, do Ministério da Defesa de Israel, tem uma avaliação pessimista. Se os iranianos decidirem acelerar o processo, "eles poderão ter um primeiro artefato até o fim de 2010, talvez no início de 2011".É por isso que Obama, com Netanyahu sentado ao seu lado, advertiu os iranianos: "Não criaremos uma situação em que as negociações se tornem uma desculpa para a inércia, enquanto o Irã continua desenvolvendo uma arma nuclear."A estratégia de Obama tem como base a aposta que, após as eleições iranianas, o caminho estará aberto para convencer os aiatolás de que é de seu interesse, no longo prazo, firmar um acordo que troque a capacidade de produzir combustível nuclear por uma série de recompensas tentadoras. Estrategistas de Washington acenam com a perspectiva de abrir as torneiras dos investimentos para a decrépita infraestrutura petrolífera do Irã e até de auxiliar o desenvolvimento de um programa nuclear civil para o país, contanto que o Irã mantenha distância da produção de combustível nuclear. Contudo, se no fim do ano os iranianos ainda se recusarem a negociar de maneira séria, os assessores de Obama estudam sanções mais extremas, como o corte de garantias de crédito a companhias europeias que fazem negócios com o Irã. * David Sanger é membro do Council on Foreign Relations, centro de estudos dos EUA com sede em Nova York

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