REUTERS/Lucas Jackson
REUTERS/Lucas Jackson

Debate do Partido Democrata opõe candidatos progressistas e moderados

Bernie Sanders e Elizabeth Warren apresentaram suas ideias progressistas, mas foram alvos dos outros pré-candidatos

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2019 | 23h58

WASHINGTON - Dez dos 22 pré-candidatos democratas à corrida presidencial de 2020 se reuniram nesta terça-feira, 31, em um debate promovido pela rede CNN no Fox Theatre, em Detroit. Os ataques se concentraram nos senadores Bernie Sanders e Elizabeth Warren, dois dos nomes considerados mais progressistas entre os democratas que disputam a vaga do partido na eleição do próximo ano. Bernie Sanders e Elizabeth Warren foram os destaques, e apresentaram suas conhecidas ideias progressistas, em meio à troca de ataques com os outros candidatos, mais moderados. 

Sanders e Warren, com 16% e 14% das intenções de voto, respectivamente, são conhecidos críticos do poder do dinheiro e de Wall Street e representam uma opção à esquerda na corrida pela indicação democrata, que começará com as primárias de Iowa, no dia 3 de fevereiro.

Os dois foram os primeiros a subir no palco, de onde saudaram afetuosamente o público de Detroit, Michigan, um dos Estados "pendulares" que alternam seu apoio entre democratas e republicanos. Warren defendeu "uma mudança grande e estrutural" no país e advertiu que a falta de vontade política para se enfrentar o presidente Donald Trump vai manter o sistema "manipulado que ajuda os ricos e os que têm bons contatos, em detrimento dos demais".  

Sanders, que defende um programa de assistência médica universal conhecido como "Medicare para todos", a legalização da maconha e a elevação do salário mínimo para US$ 15 a hora, convocou o eleitor a "transformar a economia e o governo", e citou como exemplo o Canadá, onde a saúde é um "direito humano".

Mas ambos se tornaram alvo dos demais pré-candidatos. 

"Podemos seguir pelo caminho que o senador Sanders e a senadora Warren querem nos levar com políticas ruins como o 'Medicare para todos', tudo de graça e promessas impossíveis que vão afastar os eleitores independentes e reeleger Trump", disparou o ex-congressista John Delaney. Warren respondeu: "Nós somos democratas, não tratamos de tirar a assistência médica de ninguém, quem faz isso são os republicanos".

Críticos alertam para os riscos de o partido se colocar muito à esquerda do espectro na corrida para 2020. Como parte de sua estratégia de campanha, Trump não se cansa de afirmar que todos os pré-candidatos democratas abraçaram o "socialismo radical".

Já nas duas primeiras questões, os temas mais controvertidos entre os democratas — saúde e imigração — deixaram clara a divisão no palco do Fox Theatre entre a dupla de veteranos (Sanders tem 77 anos, e Warren, 70) e os outros oito pré-candidatos. Completavam o palco nomes tidos como mais moderados como os jovens Pete Buttigieg (de 37 anos) e Beto O’Rourke (de 46), estrelas em ascensão no partido, e também o governador de Montana, Steve Bullock; a senadora de Minnesota Amy Klobuchar; a autora Marianne Williamson; o congressista de Ohio Tim Ryan; o ex-governador do Colorado John Hickenlooper, e o ex-congressista de Maryland John Delaney.

Tanto o senador por Vermont como a senadora por Massachusetts defenderam suas posições em apoio à saúde universal e à descriminalização da fronteira sul, com o México, onde se desenrola uma grave crise imigratória. Candidato nas primárias democratas de 2016, Sanders foi questionado sobre declarações de Delaney, que afirma que a saúde universal não é o caminho que os EUA devem seguir, pois, segundo ele, retiraria seguros de saúde de trabalhadores que já os têm.

“Você está errado”, respondeu Sanders, arrancando aplausos da plateia. “Eu acredito que a saúde é um direito universal, lutarei por isso.” Perguntado se os benefícios de um programa universal de saúde seriam tão bons quanto os que os sindicatos americanos conseguiram conquistar para os trabalhadores, Sanders afirmou que seriam ainda melhores, e foi interrompido.

“Você não sabe se serão”, afirmou o congressista de Ohio. “É claro que sei, eu escrevi o projeto de lei”, rebateu Sanders. Na tentativa de encurralar os dois progressistas, que junto com o ex-vice-presidente Joe Biden estão no grupo que encabeça as pesquisas, o ex-governador Hickenlooper argumentou que os democratas conseguiram tomar 40 cadeiras na Câmara dos Deputados nas eleições de 2018, e que “nenhum desses candidatos apoiava as políticas” dos dois senadores.

A discussão sobre imigração teve início com uma pergunta a Buttigieg, que afirmou que migrantes que cruzam a fronteira ilegalmente só sejam processados criminalmente em casos de fraude. Warren tentou desviar o foco para as famílias separadas na fronteira pelas políticas do presidente Donald Trump. Hickenlooper argumentou que o Congresso poderia usar ferramentas já existentes para evitar tal cenário.

“Bem, uma maneira de consertar isso, é por meio da descriminalização da fronteira”,  afirmou a senadora. “Acho que é disso que estamos falando.” 

Nesta quarta-feira, outros dez candidatos realizam um segundo debate no mesmo local. O ex-vice-presidente Joe Biden e a senadora Kamala Harris, destaque do primeiro debate democrata, devem concentrar as atenções. Completam a lista os senadores Cory Booker, Kirsten Gillibrand e Michael Bennet; a congressista Tulsi Gabbard; o prefeito de Nova York, Bill de Blasio; o ex-prefeito de San Antonio, Julián Castro; o empresário Andrrew Yang, e o governador do estado de Washington, Jay Inslee.

As apostas são altas. O debate deve contribuir para começar a reduzir o número de candidatos, talvez pela metade, até o próximo encontro que será em setembro. "Nesse momento acho que será 'Sleepy Joe' (Joe Sonolento)", disse Trump, em conversa com a imprensa na Casa Branca, usando o recorrente apelido para Biden.

Depois de uma performance apagada no primeiro debate, em junho, quando enfrentou duras críticas de Harris em relação a seu histórico político, Biden reconheceu que não estava preparado o suficiente para rebater as críticas. Na semana passada, ele afirmou, porém, "que não será tão educado desta vez".

Kamala Harris, que ganhou impulso após um momento com Biden que viralizou, mas que já caiu para quarto nas pesquisas, garantiu que vai jogar limpo. "Vou manifestar diferenças e articulá-las", disse ela à imprensa nesta segunda-feira, em Detroit. "Não há razão para não sermos educados", completou.

De acordo com a média de pesquisas de intenção de voto feita pelo site RealClearPolitics.com, Biden conseguiu manter sua liderança, com um apoio em torno de 32%. / AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.