Paul Sancya/AP
Paul Sancya/AP

Precisa de teste de coronavírus? Ser rico e famoso pode ajudar

Com kits escassos em várias regiões dos EUA, personalidades foram testadas mesmo sem apresentar sintomas

Megan Twohey, Steve Eder e Marc Stein, The New York Times

20 de março de 2020 | 04h00

Políticos, celebridades, influenciadores e até equipes da NBA fizeram testes para o novo coronavírus. E, enquanto a lista de pessoas ricas, famosas e poderosas cresce a cada dia, aumentam também as perguntas sobre por que elas têm acesso a testes que são negados a outros americanos.

Algumas dessas pessoas dizem que estavam se sentindo mal e tinham boas razões para serem testadas. Outras argumentam que quem foi infectado e depois se isolou serviu de bom exemplo para o público.

No entanto, mesmo com os testes ainda escassos em várias regiões do país, o que deixa profissionais de saúde e muitos doentes sem diagnóstico, algumas personalidades importantes obtiveram testes sem apresentar sintomas ou contato com alguém que teve o vírus, conforme exigido por algumas diretrizes. Algumas celebridades se recusaram a especificar como foram testadas.

Tais casos suscitaram acusações de elitismo e tratamento preferencial num sistema de testes que já foi prejudicado por atrasos e confusões. Agora o debate nacional chegou à Casa Branca: numa entrevista coletiva na quarta-feira, perguntaram ao presidente Donald Trump por que “os bem conectados” estavam “furando a fila”.

“Você tem que fazer essa pergunta para eles”, respondeu o presidente. “Talvez a vida seja assim mesmo. Às vezes acontece, algumas pessoas foram testadas bem rápido”.

Na NBA, onde oito times inteiros foram testados, as opiniões são diferentes. Bob Myers, presidente de operações do Golden State Warriors, disse que seu time acha que seria injusto se seus jogadores tivessem acesso especial.

“Fomos informados de que os testes são escassos”, disse Myers em uma teleconferência na terça-feira, explicando que nenhum treinador, jogador ou membro do Warriors fará testes antes de apresentar sintomas – e somente de acordo com as diretrizes do governo. “Não somos melhores que ninguém, não somos piores. Somos apenas um time de basquete”.

No mesmo dia, o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, escreveu um post no Twitter criticando o Brooklyn Nets, que conseguiu organizar testes para todo o seu elenco. Quatro deram positivos, com apenas uma pessoa apresentando sintomas.

“Desejamos a eles uma rápida recuperação”, escreveu de Blasio. “Mas, com todo o respeito, toda uma equipe da NBA NÃO deve fazer o teste para covid-19 enquanto houver pacientes graves aguardando para serem testados. Os testes não são para os ricos, mas sim para os doentes”.

O acesso se mostrou desigual em todo o país, mesmo quando se ampliaram os critérios para realização dos testes e os laboratórios que disponibilizam o serviço, desde os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) no nível federal até os departamentos estaduais de saúde e também hospitais e laboratórios particulares.

Nas regiões do país onde o vírus demorou a aparecer, as pessoas conseguiram obter testes facilmente. Mas, nos estados de Nova York, Califórnia, Washington e Massachusetts, onde o vírus se espalhou rapidamente e a demanda por testes é mais alta, está muito difícil.

O Departamento de Saúde da cidade de Nova York orientou os médicos a solicitar exames apenas para pacientes que precisam de hospitalização. As pessoas com sintomas leves estão sendo instruídas a se colocar em quarentena em casa. Até os profissionais de saúde, com alto risco de contrair o vírus e transmiti-lo, têm enfrentado dificuldades para fazer o teste.

Em New Rochelle, Nova York, uma comunidade ao norte de Manhattan onde o vírus se espalhou, uma mãe doente foi informada de que não poderia fazer o teste porque não havia visitado um “ponto crítico” global. Em Boston, um funcionário da Biogen, uma empresa de tecnologia onde muitas dezenas deram positivo depois de uma conferência, não pôde fazer o teste porque não apresentava sintomas. A hashtag #CDCnãoQuerMeTestar circula no Twitter há semanas.

Aos olhos de alguns médicos, figuras proeminentes pareciam estar furando fila.

“Como previsto, a #COVID19 está expondo todas as desigualdades sociais”, escreveu no Twitter Uché Blackstock, médico de urgência no Brooklyn, Nova York. “É frustrante 1) ter que racionar o teste #COVID19 entre meus pacientes e 2) ter que esperar 5-7 dias pelos resultados, enquanto as celebridades estão sendo testadas com facilidade e rapidez”.

A elite de Hollywood – estrelas, agentes, executivos de canais e estúdios – tem médicos particulares disponíveis o tempo todo e está acostumada a receber tratamento preferencial em centros médicos de Los Angeles, como o Cedars-Sinai e o Ronald Reagan UCLA Medical Center. Muitas celebridades usam o LifeSpan, um consultório particular.

Nos últimos dias, porém, algumas celebridades – mesmo as que apresentam sintomas – expressaram frustração com a impossibilidade de fazer o teste devido à falta de kits. Heidi Klum, modelo e apresentadora de TV, postou um vídeo no Instagram na sexta-feira, dizendo que havia tentado duas clínicas, sem sorte. “Simplesmente não consigo um teste”, disse ela.

O vídeo pode tê-la ajudado. Um dia depois, ela voltou ao Instagram para dizer que “finalmente” tinha conseguido fazer o teste. O resultado deu negativo. Os representantes de Klum não responderam às perguntas.

De maneira geral, celebridades de todos os tipos parecem ter tido muito mais facilidade em obter diagnósticos. Na segunda-feira, Arielle Charnas, influenciadora de redes sociais com mais de 1,3 milhão de seguidores no Instagram, postou dizendo que estava com dor de garganta e febre nos “últimos dois dias”. Disseram que ela não atendia aos critérios para teste e que deveria tratar seus sintomas em casa.

Mas, depois da postagem no Instagram, ela disse que foi inundada com mensagens de fãs pedindo que ela fosse testada para o covid-19. Ela marcou um amigo, o Dr. Jake Deutsch, fundador do Cure Urgent Care, que concordou em testá-la.

Ela documentou o procedimento online. E marcou a conta do Instagram de Deutsch e de sua clínica, agradecendo. Na quarta-feira de manhã, ela postou uma declaração informando a seus seguidores que os resultados eram positivos. “Percebi que muitas pessoas, tanto na cidade de Nova York quanto em todo o país, não têm chance de receber atendimento médico imediato ao primeiro sinal de doença, e o acesso aos cuidados é a prioridade número 1 num momento como este”, ela escreveu.

Deutsch disse que tem parceria com dois laboratórios particulares, BioReference e Lenco, para oferecer testes. Nos últimos três dias, segundo ele, sua clínica examinou quase 100 pacientes, metade com resultados positivos.

No Capitólio, onde quatro senadores e quase uma dúzia de membros da Câmara optaram por se colocar em quarentena após uma possível exposição ao vírus, parece haver um padrão.

Aqueles que consultaram seus próprios médicos ou o médico assistente do Congresso foram, em geral, desaconselhados a fazer o teste enquanto não apresentassem sintomas.

“Todos os médicos que consultei me disseram que, como não apresento sintomas e não tenho doença crônica, os exames eram medicamente ineficazes”, disse o senador Ted Cruz, republicano do Texas, no sábado, em entrevista à ABC News.

Alguns parlamentares que obtiveram testes são aliados próximos do presidente: o senador Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul e parceiro de golfe de Trump; o deputado Mark Meadows, republicano da Carolina do Norte e chefe de gabinete da Casa Branca; e o deputado Matt Gaetz, republicano da Flórida, que soube que havia sido exposto ao vírus ao embarcar no Air Force One na semana passada para voltar a Washington com Trump. Seus testes deram negativo.

Os porta-vozes de Meadows e Graham se recusaram a responder a algumas perguntas por email sobre as circunstâncias de seus testes, como quem os havia encomendado e onde foram realizados.

Gaetz escreveu no Twitter que as autoridades médicas da Casa Branca disseram que ele estava fazendo teste não “porque estou no Congresso – mas porque estive em contato próximo com o presidente Trump por vários dias”.

Na quarta-feira, foi anunciado que um congressista havia testado positivo: o deputado Mario Diaz-Balart, da Flórida, que estivera no plenário da Câmara na manhã de sábado. (Outro político da Flórida, o prefeito de Miami, Francis Suarez, também deu positivo).

Wendy Bost, porta-voz da Quest Diagnostics, um dos maiores laboratórios comerciais do país, disse que várias organizações pediram ajuda para testar seus funcionários e observou que a Quest forneceu “uma porcentagem extremamente pequena de nossos kits de coleta para um pequeno número de equipes esportivas”. Ela disse que a empresa concordou em fazê-lo apenas para equipes com pelo menos um caso diagnosticado.

A Quest, assim como a LabCorp, outra grande empresa de diagnóstico, disse que os testes foram processados na ordem em que foram recebidos.

Em 7 de março, a NBA instruiu todas as equipes a identificar uma instalação médica próxima onde poderiam se inscrever para realizar os testes, de acordo com um memorando privado obtido pelo New York Times. Mas as abordagens dos times variaram, e alguns dizem que não testaram seus jogadores.

Uma porta-voz do Nets disse que os testes foram obtidos por meio de uma empresa privada, para evitar o uso de recursos públicos. Os testes ocorreram depois que a equipe “notou que vários de nossos jogadores e funcionários tinham sintomas”, disse ela.

A equipe reagiu às críticas de que havia recebido acesso injusto, dizendo: “Se esperássemos que os jogadores apresentassem sintomas, eles poderiam ter continuado a representar um risco para suas famílias, amigos e o público”. / Tradução de Renato Prelorentzou 

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