'Precisamos de apoio externo para nos armar'

Representante na Turquia da oposição síria, médico culpa inércia internacional pela dificuldade em lutar contra as forças de Assad

Entrevista com

LOURIVAL SANTANNA, ENVIADO ESPECIAL / ISTAMBUL, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2012 | 03h08

Se o Exército Livre da Síria (ELS) não receber ajuda internacional para se organizar e se armar, o conflito no país corre o risco de degenerar, com a entrada em cena de grupos estrangeiros sem um comando único. A advertência é do médico Khaled Khoja, representante do Conselho Nacional Sírio (CNS) perante o governo turco.

Ao Estado, Khoja reconheceu a frustração com a falta de ajuda aos combatentes rebeldes. O médico, de 46 anos, migrou da Síria para a Turquia aos 17 anos, depois de ficar na prisão 2 anos. Seu pai era membro do Sindicato dos Médicos de Damasco, que apoiou a rebelião de Hama em 1982. Ele pede ao Brasil que "ajude o povo sírio a conquistar sua liberdade".

Como o senhor vê as críticas das três pessoas que deixaram o CNS, acusando-o de inércia enquanto sírios são massacrados?

Há muitas críticas de oposicionistas e figuras políticas dentro da Síria porque o CNS não conseguiu dar nenhum passo positivo para ajudar o ELS. Esses oposicionistas e também desertores do Exército não entendem que não depende da vontade do CNS, mas do consenso da comunidade internacional. Ninguém pode armar o ELS sem uma decisão do Conselho de Segurança da ONU ou das potências. E a realidade é que, ao longo de 40 anos, fazer política foi proibido na Síria. Somos novos na política. O CNS foi fundado há cinco meses e reúne um espectro político muito amplo, da esquerda à direita, e diversos grupos étnicos. Não se pode esperar que ele chegue a decisões muito certeiras no meio de um conflito. A própria divisão na comunidade internacional coloca o CNS em uma situação muito difícil. E não temos experiência com política.

Como superar essa incerteza?

Existem duas dinâmicas: a interna e a externa. Externamente, a comunidade internacional não chega a um entendimento sobre apoiar ou não o ELS. Não acho que o presidente Barack Obama vá intervir na Síria antes da eleição presidencial americana (6 de novembro). O presidente francês, Nicolas Sarkozy, também disputa sua reeleição (22 de abril). Os EUA e a França são líderes importantes da comunidade internacional. Então, temos de esperar. A China e a Rússia ainda apoiam o regime sírio e o Irã é parte do problema. Precisamos resolver com eles antes de lidar com Bashar Assad. Essa situação tem um impacto negativo sobre os sírios, sobre a dinâmica interna. Há muitos desertores do Exército e um número muito pequeno de dissidentes do governo. O regime ainda tem o apoio do Exército, das instituições e dos empresários. Esperamos chegar a um ponto em que ele se decomponha por dentro.

Por que isso ainda não ocorreu?

Porque o aparato de segurança é muito poderoso. As pessoas temem por suas vidas. Não haverá deserções em massa sem a ajuda internacional.

Arábia Saudita e Catar estão empenhados em armar o ELS?

Sim, mas o problema é como fazer essa ajuda chegar. Geograficamente, há quatro opções. Pelo Iraque é impossível. A Jordânia mantém-se neutra, pois se sente vulnerável em relação à Síria. O Líbano tem o Hezbollah e se as armas passarem por lá o conflito se estenderá ao país. A Turquia é a única opção viável. E ela não agirá sem uma decisão da comunidade internacional. A Turquia está esperando a reunião dos Amigos da Síria (70 países) em Ancara, dia 2.

O senhor tem uma mensagem para o Brasil?

Há muitos sírios no Brasil e acho que eles ainda se sentem sírios. Quero dizer aos brasileiros que essa é uma questão humanitária. O regime sírio não vai mudar de posição. Pedimos ao Brasil que ajude o povo sírio a conquistar sua liberdade.

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