Precisamos de um comandante agora

Não podemos esperar dois meses sem saber quem está na chefia e para onde vamos

Thomas Friedman*, O Estadao de S.Paulo

26 de novembro de 2008 | 00h00

Tenho uma confissão e uma sugestão a fazer. Entro nos restaurantes, olho para as mesas cheias de jovens e sinto uma ânsia de falar: "Vocês não me conhecem, mas devo lhes dizer que vocês não deveriam estar aqui. Vocês deveriam economizar seu dinheiro, deveriam estar em casa comendo atum. Falta muito para esta crise acabar. Estamos apenas no final do começo. Por favor, embrulhem o filé num marmitex e vão para casa."Agora vocês sabem por que não tenho sido convidado para jantar fora ultimamente. Se dependesse de mim, poderíamos convocar agora mesmo uma sessão especial do Congresso, emendar a Constituição e antecipar a data da posse de Obama de 20 de janeiro para o feriado de Ação de Graças. Esqueçam o baile inaugural; não podemos pagar pelas festividades. Esqueçam as arquibancadas; não precisamos delas. Apenas consigam um juiz e uma Bíblia, e vamos fazer o juramento de Obama imediatamente - por escolha - com a mesma pressa com que fizemos - por necessidade - o juramento de Lyndon B. Johnson nos fundos do avião presidencial Air Force One.Infelizmente, demoraria muito até que os Estados ratificasse tal emenda. O que podemos fazer agora, segundo o estudioso do Congresso Norman Ornstein, co-autor do livro The Broken Branch (O Braço Quebrado do Governo), é "pedir ao presidente George W. Bush que nomeie imediatamente Tim Geithner, o secretário do Tesouro proposto por Obama". Não se trata de uma crítica a (Henry) Paulson. O problema é que não podemos suportar uma transição de dois meses com os mercados sem saber quem está no comando e para onde vamos. E o Congresso deveria manter-se em sessão permanente para aprovar qualquer legislação que se faça necessária.Este é o verdadeiro "alerta vermelho". É como um banqueiro comentou: "Finalmente encontramos as armas de destruição em massa." Elas estavam enterradas no nosso quintal - hipotecas subprime e os derivativos atrelados a elas.Ainda assim, é óbvio que o presidente Bush não é capaz de mobilizar todas as ferramentas necessárias para desarmar esse arsenal - um imenso programa de estímulo para incrementar a infra-estrutura e criar empregos; uma iniciativa ampla entre os proprietários de casas para limitar as execuções hipotecárias, estabilizando o preço das moradias e os ativos relativos às hipotecas; mais capital para o balanço patrimonial dos bancos; e, principalmente, uma gigantesca injeção de confiança na nossa recuperação sob o comando de uma nova equipe econômica.A última ferramenta é algo que apenas um novo presidente Obama será capaz de aplicar. O que nos aflige no momento é a falta de confiança no nosso sistema financeiro e nos nossos líderes. Não tenho a ilusão de que a chegada de Obama na cena será um passe de mágica, mas estou certo de que ajudará.No momento há algo de profundamente disfuncional, quase escandalosamente irresponsável, na maneira refratária com a qual nossa elite política está se comportando, como se as coisas seguissem normais no momento de maior anormalidade econômica de nossas vidas. Ela parece não compreender: nosso sistema financeiro está em perigo."A união parece ter desaparecido. A emergência parece agora ser um pouco menos urgente", disse Bill Frenzel, ex-congressista republicano que serviu dez mandatos.Não quero ver a indústria automobilística de Detroit ser dizimada, mas o que devemos fazer com os executivos das montadoras que voam para Washington em três jatos particulares separados, pedem para ter suas empresas resgatadas pelo dinheiro do contribuinte e não apresentam um plano para sua transformação?Os mercados de ações e de crédito não foram enganados. Eles começaram a atribuir às ações financeiras preços dignos da Grande Depressão - e não apenas preços de recessão. Com US$ 5 você pode agora comprar uma ação do Citigroup e ainda ter troco para comer algo no McDonald?s.Como resultado, é possível que Obama seja obrigado a enfrentar o maior desafio de sua presidência antes mesmo de ela começar."Agora é o momento de fazer uma grande avaliação para determinar o tamanho do problema e o estado da situação", diz Jeffrey Garten, professor de finanças de Yale. "Trata-se de uma avaliação crucial. Será que achamos que algumas centenas de bilhões de dólares adicionais e uns poucos trimestres ruins vão realmente resolver a questão? Ou pensamos que - apesar de tudo o que foi feito até agora, apesar do fundo de US$ 700 bilhões para o resgate dos bancos, apesar da redução das taxas de juros e da maneira direta com que o Fed interveio para sustentar certos mercados - o fim dos problemas ainda não está à vista e estamos todos olhando para um abismo em que o mundo todo poderia cair?"Caso se confirme a última hipótese, então precisaremos de um imenso catalisador de confiança e de capital para reverter o quadro. Somente o novo presidente e sua equipe, em sincronia com as outras grandes economias do mundo, serão capazes de proporcionar o catalisador."O maior erro que Obama poderia cometer", acrescentou Garten, "é pensar que o problema seja menor do que realmente é. Por outro lado, é muito menor o perigo de se superestimar aquilo que será necessário para resolvê-lo".O senso comum diz que é bom para um novo presidente começar com os pés no chão. A única direção a seguir é para cima. Isso é verdade - a menos que o chão desapareça debaixo dos pés do presidente antes mesmo de ele começar. *Thomas Friedman é colunista

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