Precisamos quebrar todas as regras da diplomacia

Análise: Thomas L. Friedman / NYT

O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2013 | 02h05

Primeiro, meus parabéns e minhas condolências a John Kerry por ter sido nomeado o próximo secretário de Estado dos EUA. Não existe hoje ninguém melhor para o cargo e nenhum emprego pior para se ter. Não é por acaso que começamos a medir nossos secretários de Estado mais pelas milhas viajadas do que pelos marcos alcançados. É terrivelmente difícil fazer grande diplomacia hoje em dia.

Por quê? Bem, como secretário de Estado hoje é preciso lidar com o presidente russo, Vladimir Putin, que teve vida mansa e acha que foi dura. Isso é, apesar de a economia da Rússia ser imensamente corrupta e bem pouco inovadora, Putin está sentado numa enorme reserva de petróleo e gás que o faz pensar que ele é um gênio e não precisa ouvir ninguém. Quando confrontado recentemente com o mau comportamento de seu regime, seu primeiro instinto foi impedir pais americanos de adotar órfãos russos, apesar de muitos deles estarem precisando urgentemente de um lar. Se houvesse um prêmio "anti-Nobel da Paz", Putin ganharia com as mãos nas costas.

Quando Putin não está disponível para enrolar os EUA, a China - a quem devemos uma montoeira de dólares - está pronta para entrar em cena. Esses dois países são reais, onde ao menos há alguém para atender o telefone - e desligar na nossa cara. Em outros países, o secretário de Estado precisa lidar com Estados falidos ou à beira da falência, como Mali, Argélia, Afeganistão e Líbia, cujos governos não conseguem atender aos interesses de seus povos, muito menos aos nossos. Se quiser uma parada, Kerry sempre poderá recorrer ao Egito, nosso velho aliado cujo presidente, Mohammed Morsi, descreveu em 2010 os judeus como "descendentes de macacos e de porcos". Quem sabia?

O que pode fazer, então, um secretário de Estado? Sugeriria tentar algo radicalmente novo: criar as condições para a diplomacia onde ela hoje não existe, contornando os líderes e indo direto ao povo. Começaria com Irã, Israel e palestinos. Vivemos numa época de redes sociais em que cada líder é obrigado a se engajar numa conversa de mão dupla com seus cidadãos. As coisas já não são apenas de cima para baixo. Pessoas de toda parte estão descobrindo suas vozes e os líderes estão assustados. Precisamos usar isso em nosso benefício para ganhar força na diplomacia.

Precisamos quebrar todas as regras. Em vez de negociar com autoridades do Irã em segredo - o que, até agora, não produziu nada e permite que os líderes iranianos controlem a narrativa e digam a seu povo que estão sofrendo sanções por causa da intransigência dos EUA - por que não negociar com o povo iraniano? O presidente Barack Obama deveria pôr uma oferta simples sobre a mesa, em farsi, para todos os iranianos verem: os EUA e seus aliados permitirão que o Irã mantenha uma capacidade civil de enriquecimento de urânio, desde que aceite observadores e restrições da ONU que impediriam Teerã de montar uma bomba nuclear.

Deveríamos não só fazer essa oferta pública, mas dizer também ao povo iraniano: "A única razão pela qual sua moeda está sendo esmagada, seus universitários formados estão desempregados e o risco de guerra pende sobre suas cabeças é que seus líderes não aceitam um acordo que permitiria ao Irã desenvolver um poder nuclear civil, não uma bomba". O Irã quer que seu povo pense que o país não tem nenhum parceiro para um acordo nuclear civil. Os EUA podem provar o contrário.

Sobre a questão palestino-israelense, Kerry deveria oferecer ao presidente Mahmoud Abbas o seguinte: os EUA reconheceriam a Autoridade Palestina na Cisjordânia como o Estado da Palestina independente sobre a base provisória das linhas de 1967, apoiariam sua plena integração na ONU e enviariam um embaixador a Ramallah, com a condição de que os palestinos aceitem o princípio de "dois Estados e dois povos" - um Estado árabe e outro judaico, segundo a Resolução 181 da ONU - e que fronteiras permanentes, segurança e trocas de terras sejam negociadas diretamente com Israel.

Por que fazer isso? Porque não haverá nenhuma novidade na questão a menos que as maiorias silenciosas de ambos os lados saibam que têm um parceiro - que os palestinos aceitaram a condição de dois Estados e os israelenses aceitaram a condição de um Estado palestino. Os líderes poderão bloqueá-lo ou o povo pode não se interessar. Mas devemos começar a nos portar como superpotência e forçar uma hora da verdade. Não podemos perder mais quatro anos com aliados (ou inimigos) que podem estar nos fazendo de bobos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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