Andreza Flores/ Arquivo Pessoal
Andreza Flores/ Arquivo Pessoal

'Precisei derreter gelo para tomar banho', conta brasileira afetada por nevasca no Texas

Moradores relatam dias sem água e energia no Estado, um dos mais atingidos pelas severas tempestades de neve da semana passada

João Paulo dos Santos, especial para o Estadão

27 de fevereiro de 2021 | 08h00

DALLAS, EUA - A nevasca que atingiu o sul dos Estados Unidos na semana passada deixou milhares de pessoas, incluindo brasileiros que moram na região, sem água e eletricidade. A situação obrigou os brasileiros a tomar banho de caneca, derreter gelo para se limpar e até a usar neve como geladeira natural para que alimentos não estragassem.

Andreza Flores, 29, que mora em Frisco, subúrbio de Dallas, no Texas, conta que os meteorologistas já alertavam sobre a nevasca e que a previsão era de que o dia 15 de fevereiro, uma segunda-feira, seria o mais frio da semana, com temperatura atingindo -18ºC. Ela não esperava, no entanto, que a sensação térmica chegasse a -27ºC e que a nevasca fosse causar tantos estragos. 

“No sábado começou a cair a temperatura, no domingo já fez muito frio e na segunda nevou muito mesmo. Para o Texas, nevou muito. Não estávamos esperando o que aconteceu semana passada", conta.

Andreza passou a segunda-feira sem energia e ficou sem água quente de segunda até sexta-feira. Por morar em uma casa mais nova, com tubulação preparada para suportar grandes mudanças de temperatura, não ficou totalmente sem água. Já construções com tubulações mais antigas, feitas de cobre, ficaram danificadas.

“Aqui todo mundo tem água quente e fria, e há alguns truques para não deixar a água fria congelar, como deixar todas as torneiras pingando com todos os gabinetes abertos. Mas não funciona com a água quente, ela congela. Então fiquei sem água e precisei tomar banho de canequinha, me senti de volta ao Brasil quando era criança, esquentava a água no fogão e o banho ia na caneca.”

Segundo Andreza, ela sofreu "dos males o menor", pois muitas pessoas tiveram que sair de casa e buscar abrigo com parentes ou amigos que tinham água e energia. “É impossível ficar dentro de casa com sensação de quase -30º sem água quente e sem o aquecedor ligado.”

Os sogros da brasileira Paloma, que mora em Austin, no Texas, também ficaram sem energia e água. Embora a distância entre as casas das duas famílias seja de apenas 10 minutos, eles não conseguiram sair de casa, pois a quantidade de neve impedia qualquer movimentação de carro.

Paloma, por sua vez, ficou sem água de segunda-feira à quinta-feira. Ela conta que começou a encher baldes e outros recipientes, como recomendam especialistas, quando percebeu que a água estava acabando.

“Depois que a água acabou tivemos que pegar gelo do lado de fora da casa e ir derretendo na panela e usar a água para lavar os pratos, banheiro, até para tomar banho. Essa foi a sobrevivência. Tive que derreter gelo para tomar banho. Nunca pensei que ia passar por isso na minha vida, mas aconteceu.”

Paloma diz nunca ter visto nada parecido em 12 anos morando no Texas, tanto em relação à quantidade de neve quanto aos problemas causados por ela, como falta de alimentos nos supermercados, acidentes em estradas e intoxicações por monóxido de carbono.

A brasileira Michele Stein, moradora de Houston, contou que, além da nevasca, também levou um “susto” ao acordar com o alarme de monóxido de carbono disparando na madrugada de segunda-feira, quando já estava sem energia.

“Tivemos que abrir portas e janelas para ventilar, e teoricamente o gás sair. O alarme não parava, então os bombeiros vieram. No fim das contas, o alarme tinha dado defeito...mas, com isso, perdemos todo o ar quente de casa em 5 minutos.”

A família de Michele ficou sem energia por 48h, e a situação só se normalizou 5 dias depois. Ela conta que durante esse tempo precisou improvisar uma geladeira natural, colocando os alimentos da geladeira no gelo da nevasca. Sua maior preocupação era com os filhos de 2 e 3 anos. 

Depois de quase 30 horas sem energia, ela descobriu que conseguiria ligar a lareira de sua casa com pilha, garantindo uma fonte de calor.

“A sala virou acampamento. Vendo a foto parece muito confortável e até romântico uma cama em frente a lareira. Mas era a única forma de ter um pouco de calor para dormir.”

Biden vai ao Texas

O presidente dos EUA, Joe Biden, visitou nesta sexta-feira, 26, centros de socorro em Houston, Texas, uma das cidades mais atingidas pela onda de frio polar. Ele estava acompanhado da mulher, Jill. No sábado, 20, Biden já havia emitido declaração de "grande desastre" para permitir envio de ajuda ao Texas. 

Marcelo Melo, brasileiro que também vive em Houston, conta que ficou cerca de 40 horas sem energia, e que dependeu da lareira de casa para aquecer a família.  Ao sair para comprar lenha, se deparou com os estragos da nevasca. Ainda assim, esperava que a energia voltasse em breve, o que não aconteceu.

“Ao chegarmos em casa, sem termos conseguido encontrar lenha, nos agasalhamos e cuidamos das coisas. Como a luz não voltou, pegamos alguns edredons e dormimos todos juntos na minha cama, o que ajudou muito, e conseguimos nos aquecer durante uma noite em que a temperatura dentro de casa estava em -5ºC”, conta.

Na segunda, conta, procurou hotéis para passar a noite com a família. Após três horas de busca, descobriu que não havia vagas em um raio de 300 km de Houston.  Quando retornou à sua casa, a energia estava sendo normalizada.

“A partir de quinta, com luz, a vida se tornou mais fácil novamente, as temperaturas subiram um pouco e as lojas começaram a abrir, e aos poucos a nossa vida foi voltando ao normal", conta.

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