Preço da gasolina deve levar Caracas a nova realidade

Alterar valor cobrado pelo combustível no mercado interno é uma ação política tão arriscada que mesmo Chávez hesitava em fazê-lo

William Neuman, The New York Times/O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2014 | 02h04

CARACAS - A Venezuela tem a gasolina mais barata do mundo, cerca de US$ 0,06 o galão (3,8 litros), um preço tão baixo que frequentemente os motoristas enchem o tanque com menos de US$ 1 e dão ao frentista uma gorjeta maior do que o total do combustível bombeado em seus carros.

Muitos venezuelanos consideram a gasolina barata quase um direito inalienável - um resquício dos dias do boom, quando o país se via montado na riqueza do petróleo num sonho de status de primeiro mundo.

Mas a ilusão de riqueza inesgotável deve finalmente esbarrar na dura realidade. O presidente Nicolás Maduro propõe o que antes era impensável: Está na hora de aumentar o preço.

"Concordo que o governo deva aumentar o preço", comentou Luis Gelvis, de 45 anos, que trabalha num depósito, enquanto esperava para encher o tanque do velho Chevrolet SUV por US$ 0,48, menos da metade do preço de um cafezinho.

Mas quando o frentista diz que, se o preço aumentar, encher o tanque poderá custar cerca de US$ 2, o sorriso desaparece do rosto de Gelvis.

"Nada disso! É demais", ele diz. "Se aumentarem tudo isso, haverá greves e as pessoas bloquearão as estradas."

Maduro não informou quando nem para quanto aumentará o preço congelado há 15 anos, mas, nesta economia cambaleante, a urgência é clara. Segundo estimativas, o governo perde anualmente US$ 30 bilhões de gasolina, diesel e outros combustíveis. A companhia petrolífera estatal deve tomar um empréstimo de milhões de dólares do Banco Central para continuar funcionando, o país sofre de escassez crônica de bens básicos, e, no ano passado, a inflação chegou a 56%, uma das mais elevadas do mundo.

Entretanto, o aumento do combustível é uma medida arriscada do ponto de vista político, principalmente para um presidente como Maduro, que tem dificuldades em seu primeiro ano na presidência e é visto frequentemente como uma pálida sombra do seu carismático predecessor e mentor, Hugo Chávez, que morreu no ano passado. Nem Chávez, que governou a Venezuela por 14 anos e criticava os subsídios dos combustíveis, se arriscou a aumentar o preço da gasolina.

"Se o governo, que reluta tanto em fazer isso, afirma por fim que terá de fazê-lo, a situação é realmente grave", comentou Javier Corrales, professor de ciências políticas do Amherst College, falando a respeito da economia da Venezuela.

As autoridades venezuelanas disseram que o aumento provavelmente seria gradativo e seu objetivo seria cobrar o suficiente para cobrir o custo da produção da gasolina. "É justo acrescentar que precisamos cobrar pelos hidrocarbonetos que vendemos no mercado interno porque estamos pagando para as pessoas encherem o tanque", disse Maduro. Ele pediu um diálogo nacional sobre a questão. Mas insistiu que o aumento terá de ocorrer.

Rafael Ramírez, presidente da estatal petrolífera, que é também ministro de Energia, afirmou em dezembro que o preço real da gasolina de alta octanagem, que as pessoas costumam comprar, seria equivalente a US$ 1,62 o galão, muito mais elevado do que o cobrado atualmente.

Os venezuelanos usam diariamente cerca de 323 mil barris de gasolina, informou Ramírez. E embora disponha de enormes reservas, a Venezuela importou dezenas de milhares de barris de gasolina por dia dos EUA nos dois últimos anos, segundo a Agência de Informação de Energia em Washington, em razão de problemas nas refinarias. A Venezuela paga preço de mercado - em média US$ 2,70 o galão - para importar a gasolina que distribui praticamente de graça. "É um subsídio doido", disse Francisco J. Monaldi, professor visitante de política pública na Harvard Kennedy School of Government, que estuda as companhias petrolíferas da América Latina.

Ele disse que a receita perdida em razão dos subsídios é maior do que o valor gasto pelo governo com educação e saúde juntas. Apesar da orientação socialista do governo, as classes média e alta beneficiam-se consideravelmente do subsídio porque elas mais provavelmente possuem carros, enquanto os pobres se beneficiam do preço baixo das tarifas de transporte.

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