Laszlo Balogh/AP
Laszlo Balogh/AP

Preços de alimentos e combustíveis castigam famílias, enquanto inflação aumenta ao redor do mundo

Quase dois anos após o início da pandemia de covid-19, impacto econômico da crise ainda é sentido, mesmo após o fim de rígidos lockdowns e a retomada do consumo

Justin Spike, Paul Wiseman e Vanessa Gera, AP, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2021 | 19h59

BUDAPESTE - Das lojas de eletrodomésticos nos Estados Unidos aos mercados de alimentos na Hungria, passando pelos postos de gasolina na Polônia, preços elevados -- causados por alto custo de energia e perturbações em cadeias de fornecimento -- estão castigando famílias e empresas em todo o mundo.

Inflação em alta está elevando os preços dos alimentos, da gasolina e de outros produtos, obrigando muitas pessoas a escolhere entre coçar o bolso ou apertar o cinto. Nos países em desenvolvimento, a situação é especialmente difícil.

“Percebemos que estamos consumindo menos”, afirmou Gabor Pardi, cliente de um mercado de alimentos a céu aberto na capital da Hungria, Budapeste, após comprar um saco de verduras, recentemente. “Tentamos comprar os alimentos mais baratos e econômicos, mesmo que sua aparência não seja tão boa.”

Quase dois anos após o início da pandemia de covid-19, o impacto econômico da crise ainda é sentido, mesmo após o fim de rígidos lockdowns e a retomada do consumo. Agora, uma nova elevação nos índices de casos de covid-19 e uma nova variante do coronavírus, a Ômicron,  estão fazendo com que países aumentem as restrições nas fronteiras e em outros campos, ameaçando a recuperação econômica global.

As reverberações estão atingindo de maneira especialmente cruel a Europa Central e o Leste Europeu, cujos países apresentam alguns dos mais altos índices de inflação entre os 27 membros da União Europeia, onde as pessoas têm enfrentado dificuldades para comprar comida ou encher os tanques dos carros.

A açougueira Ildiko Vardos Serfozo, que trabalha no mercado a céu aberto de Budapeste, afirmou que percebeu uma queda no movimento, enquanto clientes preferem fazer suas compras em supermercados de cadeias internacionais capazes de lhes oferecer descontos em compras por atacado.

“Consumidores são sensíveis aos preços e, portanto, com frequência nos abandonam, mesmo que nossos produtos sejam de maior qualidade. O dinheiro canta”, afirmou ela. “Percebemos que a inflação não nos beneficia. Estou feliz que meus filhos não queiram seguir no ramo de atividade de nossa família. Não vejo muito futuro aqui.”

Perto de lá, na Polônia, Barbara Grotowska, uma aposentada de 71 anos, afirmou do lado de fora de um supermercado que oferece descontos na capital, Varsóvia, e que o aumento que mais a prejudicou foi o da taxa de coleta de lixo, que quase triplicou, para 88 zlotis (US$ 21). Ela também lamentou que o preço do óleo de cozinha que utiliza aumentou em um terço, para 10 zlotis (US$ 2,40).

“É uma baita diferença”, afirmou.

O recente aumento na inflação pegou de surpresa diretores de empresas e economistas de todo o mundo.

Na primavera de 2020, o coronavírus esmagou a economia global: governos ordenaram  lockdowns, comércios fecharam ou diminuíram seu período de atividade e as famílias ficaram em casa. As empresas se prepararam para o pior, cancelando pedidos e adiando investimentos.

Em uma tentativa de evitar a catástrofe econômica, países ricos — mais notavelmente os Estados Unidos — injetaram trilhões de dólares na economia por meio de ajudas governamentais, uma mobilização econômica que não era vista desde a 2.ª Guerra. Bancos centrais também derrubaram taxas de juros em uma tentativa de reavivar a atividade econômica.

Mas esses esforços para ativar as economias surtiram consequências não intencionadas: conforme os consumidores se sentiram encorajados a gastar o dinheiro que obtiveram de assistências do governo ou empréstimos a juros baixos e as campanhas de vacinação encorajaram as pessoas a voltar a frequentar restaurantes, bares e lojas, esse aumento de demanda testou a capacidade dos fornecedores de acompanhar seu ritmo.

Portos e armazéns de cargas ficaram subitamente entupidos de carregamentos, e os preços começaram a aumentar à medida que as cadeias globais de fornecimento encalharam — especialmente quando novos surtos de covid-19 fechavam, por vezes, fábricas e portos na Ásia.

O aumento nos preços tem sido dramático. A inflação nos EUA foi a 6,2% em outubro, o índice mais alto desde 1990, e o Fundo Monetário Internacional prevê que os preços dos produtos ao consumidor praticados mundialmente aumentarão 4,3% este ano, a maior elevação desde 2011.

A inflação é mais pronunciada em economias de países em desenvolvimento da Europa Central e do Leste Europeu, com as taxas mais elevadas registradas na Lituânia (8,2%), na Estônia (6,8%) e na Hungria (6,6%). Na Polônia, cuja economia está entre as que cresce mais rapidamente na Europa, a inflação de outubro foi de 6,4%, o maior índice em duas décadas.

Vários clientes de uma feira de alimentos em Varsóvia afirmaram estar preocupados com os aumentos nos preços de produtos básicos, como pão e óleo de cozinha, e acham que a situação vai piorar no próximo ano, quando os preços da energia deverão se elevar. Piotr Molak, um verdureiro de 44 anos, afirmou que ainda não teve de aumentar o preço das batatas, das maçãs nem das cenouras que vende, mas os tomates-cereja que ele importa da Espanha e da Itália, que ele compra em euros, ficaram muito mais caros, à medida que a moeda polonesa, o zloti, enfraqueceu.

“Sentiremos isso principalmente no ano que vem, quando a eletricidade aumentar”, afirmou Molak. “Sentiremos isso de verdade quando tivermos de gastar mais para manter nossos lares do que para nos divertir.”

As moedas que perdem valor diante do dólar americano e do euro em países da Europa Central e do Leste Europeu estão aumentando o preço das importações e dos combustíveis, exacerbando o beliscão dos congestionamentos no fornecimento e outros fatores.

A moeda da Hungria, o florim, perdeu cerca de 16% de seu valor em relação ao dólar nos últimos seis meses e atingiu uma baixa recorde em relação ao euro na semana passada. Isso é parte de uma estratégia do banco central húngaro de manter o país competitivo e atrair empresas estrangeiras em busca de funcionários que trabalhem por salários baixos, afirmou Zsolt Balassi, gerente de portfólio da Hold Asset Management, em Budapeste.

Mas os preços das mercadorias importadas foram às alturas, e os preços globais do petróleo, estabelecidos em dólares americanos, elevaram os custos dos combustíveis a níveis recorde.

“Enquanto o florim húngaro e todas as outras moedas da região se enfraquecerem, em maior ou menor medida, isso aumentará constantemente os preços do petróleo em nossas moedas”, afirmou Balassi.

Em resposta aos preços recorde dos combustíveis, que atingiram um pico este mês, com o litro da gasolina custando 506 florins (US$ 1,59) e o litro do diesel a 512 florins (US$ 1,61), o governo da Hungria anunciou um valor máximo de 480 florins (US$ 1,50) a ser cobrado nos postos de abastecimento. 

Trazendo algum alívio, as próximas eleições na Hungria, nas quais o partido do governo enfrentará o mais sério desafio desde a sua ascensão, em 2010, provavelmente serão um fator, afirmou Balassi.

“Será uma decisão política que obviamente traz grandes desvantagens econômicas, mas que provavelmente trará felicidade para os lares”, afirmou ele. A natureza política de algumas decisões econômicas não se limita à Hungria.

O banco central polonês, também testemunhando um enfraquecimento na moeda de seu país, foi acusado por críticos de permitir que a inflação aumentasse demais, por tempo demais, para encorajar o crescimento e impulsionar o apoio ao partido governista.

O banco central polonês surpreendeu os mercados com o momento e o tamanho das duas elevações em sua taxa básica de juros, em outubro e novembro, em uma tentativa de diminuir os preços, enquanto o banco central húngaro aumentou os juros gradualmente este ano, ao longo de seis meses.

Ainda assim, se os bancos centrais se movimentarem agressivamente cedo demais para controlar a inflação, isso poderia causar um curto-circuito na recuperação econômica, afirmou Carmen Reinhart, economista-chefe do Banco Mundial.

Ela se preocupa com os preços mais altos dos alimentos, que prejudicam principalmente países em desenvolvimento, onde fatias desproporcionais dos orçamento das famílias são destinadas a comprar comida.

“Preços de alimentos são um barômetro para descontentamento social”, afirmou Reinhart, notando que os levantes da Primavera Árabe desencadearam-se em 2010 em parte por causa do alto preço da comida.

Anna Andrzejczak, de 41 anos, que trabalha em uma fundação ambiental na Polônia, ainda era criança quando o comunismo acabou no país, em 1989, e mal se recorda da hiperinflação e outros “tumultos" econômicos que ocorreram com a transição para a economia de mercado.

Mas ela percebe que os preços aumentaram “toda vez que encho o tanque”, com os preços dos combustíveis elevando-se em cerca de 35% no ano passado.

“Tivemos um período de estabilidade nos anos recentes, então, essa inflação é um grande choque”, afirmou Andrzejczak. “Não tivemos os mesmos aumentos de preços que naquela época, mas acho que isso causará muita tensão.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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