Prefeito de San Antonio ganha status de nova estrela democrata

Em Charlotte, na festa do partido, Julian Castro recebeu a mesma tarefa dada a Obama na convenção de 2004

DENISE CHRISPIM MARIN, ENVIADA ESPECIAL, CHARLOTTE, EUA, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2012 | 03h03

No protocolo das convenções dos dois partidos americanos, o segundo mais importante discurso vem do primeiro dia é reservado para uma estrela. O carismático governador de New Jersey, Chris Christie, foi o escolhido pelos republicanos em Tampa, na Flórida. Uma semana depois, em Charlotte, na Carolina do Norte, os democratas optaram por Julian Castro, prefeito de San Antonio, no Texas, apelidado de o "Obama Latino".

Em 2004, quando o então candidato democrata John Kerry seria nomeado na convenção democrata em Boston, o orador foi Barack Obama, um jovem senador do Estado de Illinois (o Legislativo estadual nos EUA é bicameral) - quatro anos depois, ele seria eleito presidente.

Assim como Obama, Castro não conviveu com o pai e formou-se em Direito na Universidade Harvard. Aos 38 anos, ele foi o primeiro latino a fazer esse discurso na história da política americana. Por isso, analistas preveem para ele um futuro tão brilhante quanto o de Obama.

Em sua grande noite, Castro atacou o republicano Mitt Romney, usando ironias e bom humor. Para a presidente do Partido Democrata, Debbie Wasserman Schultz, Castro é uma das figuras-chave e em ascensão da esquerda americana.

Irmão gêmeo. A opinião é compartilhada por outros observadores próximos. "Daqui a dez anos, você dirá: 'Eu estive lá quando ele fez aquele discurso'", afirmou o coordenador da campanha de Obama, Jim Messina.

A presença de Castro no palco foi introduzida por seu irmão gêmeo idêntico, Joaquín Castro, que deputado no Texas. Nas eleições de novembro, Joaquín concorre a uma vaga na Câmara dos Deputados, em Washington. Ambos seguem os mesmos passos, tanto nos estudos quanto na vida pública.

Como relatou esta semana o jornal Washington Post, quando eram ainda estudantes universitários, os irmãos Castro se encontraram com Lionel Sosa, um conterrâneo de San Antonio que trabalhara no Partido Republicano local. "Eles vieram à minha casa pedir meu conselho. O dois foram uníssonos e disseram que queriam ser prefeito. Eu perguntei: 'Mas qual dos dois?' E um deles me respondeu: 'Não importa quem seja, um de nós será prefeito'", contou Sosa.

Julian Castro rejeita o adjetivo de "Obama Latino". "Fico lisonjeado, mas não me coloco na pele dele", diz. A matriarca da família Castro é María Rosie, americana de origem mexicana e uma conhecida militante do grupo La Raza Unida, em favor dos direitos civis dos hispânicos.

Ela criou os gêmeos com a ajuda de sua mãe mexicana e impediu que eles ficassem trancafiados nos guetos latinos de San Antonio e insistiu para que eles se adaptassem à sociedade americana. Julian fala japonês, mas não domina o espanhol - ao contrário do que muita gente pensa. Na convenção, no entanto, ele arriscou uma frase: "Que Dios los bendiga" (que Deus os abençoe), o que lhe rendeu acusações de tentar explorar sua origem hispânica ao passar a impressão de que fala a língua dos imigrantes.

Seja como for, a escolha de Castro está relacionada à necessidade de ambos os partidos de apresentar, em nível nacional, líderes jovens e de atrair o interesse do eleitor hispânico ainda indeciso, sobretudo no Texas, Colorado, Nevada e Flórida.

A comunidade latina é hoje a maior minoria dos EUA, com 16% da população, e representa dois terços dos habitantes do Texas. "Essas tendências devem transformar o Estado, que atualmente é republicano, em democrata nos próximos seis anos", afirmou Castro em seu discurso.

Mesmo com um cenário mais latino para o Texas e com os holofotes da convenção sobre os irmãos Castro, ainda é incerto o caminho de ambos na política. O Texas não elege um governador ou senador democrata desde 1990.

Após o discurso em Charlotte, o jornalista Piers Morgan, da CNN, fez uma referência a Fidel e brincou com a possibilidade de alguém chamado Castro chegar à presidência dos EUA. Julian riu e respondeu de bate-pronto: "Isto nunca vai acontecer."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.