REUTERS/Omar Sanadiki
REUTERS/Omar Sanadiki

Prefeito em Alepo, Síria, Hassan ficou sem cidade

Agora, ele percorre a Europa em busca de apoio para pôr fim a conflito

Jamil Chade  CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

10 Dezembro 2016 | 05h00

Um prefeito sem cidade. É assim que se sente hoje Brita Haji Hassan, presidente do Conselho do Leste de Alepo. Em junho, Hassan foi atingido por uma explosão e retirado do local para ser atendido. Nunca mais pôde voltar. Hoje, percorre a Europa em busca de apoio para pôr um fim ao conflito. 

“A situação supera todas as palavras. O termo catástrofe é insignificante em comparação ao que ocorre em Alepo”, diz o prefeito, que está em Genebra nesta semana para reuniões com a ONU. 

Hassan foi eleito em 2013 para tentar garantir os serviços básicos do que ele mesmo chama de “Alepo liberada”. O leste da cidade não esteve nas mãos do regime de Bashar Assad por meses. Mas Damasco vem ganhando terreno nos últimos dias. Bastião de uma resistência, o leste de Alepo também passou a ser considerado pelo regime uma base de terroristas. 

“Nos últimos 26 dias, o governo reconquistou 75% da parte livre da cidade. Tivemos entre 3 mil e 3,5 mil feridos e pelo menos 800 mortos nesse período”, contou o prefeito. “Todos os hospitais estão destruídos, tivemos ataques químicos que chegaram a matar uma família inteira na semana passada.” 

A fome também é uma realidade. “Um bebê morreu na semana passada por falta de alimentos. Todas as escolas estão fechadas. Não há mais nada. Nem remédios, nem alimentos. Existe apenas um serviço de socorro aos que ficam presos nos escombros, mas não é suficiente. Os corpos que não se consegue enterrar são simplesmente deixados pelas ruas”, afirmou.

Hassan insiste que, ainda que existam jihadistas dentro da cidade, “nada justifica a morte de 150 mil pessoas” e rejeita a tese de que a ofensiva tenha como meta “acabar com o terrorismo”. Para ele, o número de jihadistas na área não passaria de 300. 

O prefeito critica as potências internacionais por terem permitido que o cerco à sua cidade tivesse durado tanto tempo. “Estamos sendo exterminados e vivendo, ao vivo, um crime contra a humanidade”, afirmou. “Como é que se pode negociar o resgate de seres humanos?”

Hassan afirma que, se pudesse, retornaria “imediatamente” à sua cidade. Mas teme que, se Assad reconquistar os bairros rebeldes, haverá represálias. “Acertos de contas vão ocorrer e temo que dezenas de jovens sejam eliminados”, completou.

Centenas de homens desapareceram de Alepo depois que o governo retomou algumas áreas controladas pelos rebeldes, segundo a ONU. “Em razão do terrível índice de detenções arbitrárias, tortura e desaparecimentos forçados pelo governo sírio, estamos seriamente preocupados com essas pessoas”, disse Rupert Colville, porta-voz do Alto-Comissariado da ONU para os Direitos Humanos. 

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