Prefeito ''revive'' maoismo para tentar chegar à cúpula do partido

Bo Xilao, administrador de Chongqing, apela ao 'Grande Timoneiro' e à ortodoxia para ingressar no comitê permanente

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2011 | 00h00

Encravada no coração da China, a megacidade de Chongqing foi a pioneira no movimento de resgate das referências maoistas e a que foi mais longe no culto a um ideário que parecia adormecido. Estudantes cantam músicas revolucionárias, moradores recebem em seus celulares mensagens de texto com slogans do líder comunista e a TV local trocou a grade comercial por conteúdo "vermelho", nome genérico para tudo o que é relacionado à revolução e ao partido.

O movimento começou há três anos sob o comando de Bo Xilai, um dos mais carismáticos líderes comunistas, que claramente usa o apelo à figura de Mao Tsé-tung como uma estratégica da campanha para conseguir entrar, no próximo ano, no seleto grupo de nove pessoas que integram o Comitê Permanente do Politburo e de fato mandam na China.

Dois dos nove integrantes do futuro Comitê Permanente do Politburo já foram pré-selecionados no Congresso de 2007: Xi Jinping e Li Keqiang. Se não cometerem erros, serão os futuros presidente e primeiro-ministro da China, respectivamente.

Ortodoxia. As outras sete posições ainda estão indefinidas e é de olho em uma delas que Bo Xilai desencadeou seu revival maoísta, que inclui a construção de estátuas do líder revolucionário e o envio de estudantes e servidores municipais para temporadas na zona rural, no melhor estilo da Revolução Cultural (1966-1976).

Também contempla o uso de métodos implacáveis de repressão. No dia 24 de abril, o funcionário público aposentado Fang Hung, de 49 anos, foi despachado para uma temporada de um ano num campo de reeducação pelo trabalho por ter ridicularizado Bo Xilai e sua campanha contra a máfia de Chongqing num post de quatro linhas no Weibo, o equivalente chinês do Twitter.

Além do resgate do estilo maoista, Bo Xilai tenta criar no município um modelo de desenvolvimento que agrada à esquerda do partido. Ele fez pesados investimentos em habitação popular e infraestrutura social e tem uma predileção por empresas estatais em relação às privadas.

Olhado com distância pelos líderes de Pequim até pouco tempo, o "Modelo de Chongqing"começou a receber nos últimos meses apoio dos líderes partidários, que simbolicamente é manifestado por meio de vistas à região.

A mais significativa delas foi realizada em dezembro por Xi Jinping. O provável futuro presidente da China compartilha com Bo Xilai a condição de "príncipe", nome utilizado para definir os filhos de comunistas que lideraram a Revolução de 1949.

Ironicamente, os pais de ambos foram perseguidos por Mao durante a Revolução Cultural . O pai de Bo Xilai, Bo Yibo, passou 15 anos na prisão, enquanto sua mãe, Hu Ming, foi espancada até a morte pelos guardas vermelhos maoistas. Xi Zhongxun, também caiu em desgraça perante Mao, foi encarcerado e reabilitado por Deng Xiaoping, que sucedeu ao Grande Timoneiro após sua morte em 1976.

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