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'Preferia que ela tivesse sido julgada', diz veterano das Malvinas

Silvio Katz entrou em combate com ingleses e afirma que Thatcher deveria ter 'sentado no banco dos réus'

Ariel Palacios, correspondente em Buenos Aires,

08 de abril de 2013 | 19h53

BUENOS AIRES - "Fiquei sabendo da morte de Margaret Thatcher por uma mensagem de texto enviado por minha mulher, hoje cedo!". Com estas palavras, o veterano de guerra Silvio Katz, que entrou em combate com os ingleses, além de ter sido torturado nas Malvinas pelos próprios oficiais argentinos por ser judeu, explicou ontem ao Estado o impacto da notícia. "'Acabou teu pesadelo', me disse ela. Mas, meus pesadelos também são outros".

Estado - A morte de Margareth Thatcher poderia ser um motivo de celebração para os veteranos argentinos de guerra?

Katz - Eu não festejo a morte de ninguém. No caso de Thatcher, preferia que ela tivesse continuado viva e consciente, sem senilidade, para vê-la sentada no banco dos réus no Tribunal Internacional de Haia, respondendo por seus crimes de guerra realizados durante o conflito das Malvinas. Uma morte salva muitas vezes o criminoso de seu castigo.

Estado - Então, sentiu que a Justiça não foi realizada?

Katz - Por outro lado, é algo difícil avaliar a coisa assim, desse jeito. Do lado emocional digo a mim mesmo que sinto que de certa forma algo, pelo menos uma parte da Justiça foi feita. Um amigo meu disse "bem morta está, merecia!". Mas, por outro, queria mesmo que estivesse viva e visse que não conseguiu derrotar a todos. Muitos de nós, veteranos, conseguimos reconstruir nossas vidas, mais além da canalhice que ela fez.

Estado - Relata que foi melhor alimentado quando era prisioneiro dos ingleses do que por seus próprios oficiais argentinos, que inclusive o torturaram…

Katz - Esta é uma briga interna em meu coração. A gente percebe que o verdadeiro inimigo, em meio ao frio e à fome, foram os oficiais argentinos. Pelo menos, os oficiais britânicos nos mostraram respeito como seres humanos quando fomos seus prisioneiros quando a guerra terminou. Respeito os soldados britânicos. Mas não respeito esses personagens políticos sombrios como Thatcher, que mandou afundar um navio (o cruzador General Belgrano) que estava distante da zona de guerra. Ela demonstrou que equiparava-se a personagens sinistros como (o ditador argentino Leopoldo Fortunato) Galtieri.

 

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