Premiado, Vargas Llosa critica cerco à imprensa

Nobel de Literatura diz que governos latino-americanos de esquerda atacam a democracia e põem em risco avanços das últimas décadas

Reuters, AP e AFP, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2010 | 00h00

MADRI

O Prêmio Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa disse ontem que o mundo deve se sentir "alarmado" pelo retrocesso na liberdade de expressão em países como Cuba, Venezuela e Bolívia e advertiu que esse direito será "sempre ameaçado" por "todas as formas de poder".

O escritor peruano de 64 anos, colunista do Estado, fez as declarações no Real Teatro de las Cortes de San Fernando, em Cádiz, sul da Espanha, ao receber das mãos do vice-presidente do governo e ministro do Interior espanhol, Alfredo Pérez Rubalcaba, o Prêmio de Defesa da Liberdade de Expressão, concedido pela Assembleia Internacional de Radiodifusão (AIR).

Vargas Llosa lembrou que o mundo viveu nos últimos anos "indubitáveis progressos" no respeito à liberdade de expressão, mas insistiu em sua preocupação com o "retrocesso" em alguns países latino-americanos. Ele se referiu especialmente a Cuba, onde há 50 anos esse direito não é respeitado e não há "nenhum indício" de que a situação vá mudar, e Venezuela, onde há "ataques ferozes" contra a imprensa e jornalistas que resistem "ao blecaute definitivo", apesar das intimidações.

"É fundamental que denunciemos os atropelos aos jornalistas venezuelanos independentes", ressaltou o escritor. Ele alertou ainda que outros países da região, com governos "nascidos de eleições legítimas", estão sofrendo com retrocessos na liberdade de expressão.

Bolívia, Equador, Argentina e - "mais recentemente" - Brasil são os países citados, juntamente com Colômbia e México, onde "a indústria do narcotráfico" atentou contra jornalistas que exerceram sua liberdade de expressão, princípio "básico" sem o qual não pode existir a democracia.

Vargas Llosa não vê só ameaças à liberdade de expressão no âmbito político ou econômico, porque "sempre haverá perigos de emboscadas por trás dos poderes".

"Não devemos ser tolerantes, nem complacentes. Estamos obrigados a situar-nos na vanguarda da defesa da liberdade de expressão", disse Vargas Llosa. Ele também se comprometeu a fazer "tudo que estiver ao alcance" para persistir nesta tarefa.

SIP. As críticas de Vargas Llosa foram feitas no dia do encerramento da 66.ª Assembleia-Geral da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP, na sigla em espanhol), realizada de Mérida, no Estado mexicano de Yucatán.

A entidade, que representa mais de 1.300 empresas privadas de comunicação das Américas, alertou para o "assédio" de governos latino-americanos de esquerda contra a liberdade de expressão. Cuba, Venezuela, Equador, Argentina e Bolívia foram citados como exemplos negativos, onde os governos impõem uma nova censura sobre os jornalistas. Brasil e Uruguai foram citados como exemplos nos quais seus governos usam eufemismos como "controle social" para restringir a ação da imprensa.

Preocupação

MARIO VARGAS LLOSA

ESCRITOR PERUANO

PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

"A luta pelo direito à liberdade de expressão deve ser entendida sempre como uma batalha que pode ser ganha, mas nunca como uma guerra. Temos sempre de estar vigilantes, não podemos ser complacentes"

"O inimigo da liberdade é o poder. O poder político, mas também outros poderes, sejam eles legítimos ou não"

"Creio que o princípio da liberdade de expressão é um princípio básico se queremos que o atual processo de democratização da América não se detenha, mas continue avançando"

"Em Cuba, esse direito desapareceu há 50 anos e não há indícios de que vá renascer imediatamente. A Venezuela, uma terra de liberdade, padece hoje de ataques ferozes contra a liberdade de expressão"

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