Premiê anuncia governo de coalizão na Tunísia

Chefe de Estado interino anuncia eleições gerais em seis meses, fim de antigos órgãos de censura e libertação de todos os presos políticos do país

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2011 | 00h00

Após um mês de instabilidade política, a Tunísia chegou ontem a um acordo para a formação do primeiro governo de unidade nacional após a queda do presidente Zine El Abidine Ben Ali, na sexta-feira. Comandado pelo primeiro-ministro Mohamed Ghannouchi, o gabinete terá a participação de três membros da oposição e permanecerá no poder até a realização de eleições gerais.

Entre as primeiras medidas estão a extinção do Ministério da Informação, órgão de censura da ditadura, e a libertação de todos os presos políticos. Em busca da conciliação, Ghannouchi convidou para o gabinete oito membros do antigo governo que não estavam envolvidos em casos de corrupção ou na repressão.

Dois assumem postos importantes: Kamel Morjane, ministro das Relações Exteriores, e Ahmed Kriaa, ministro do Interior. Ao lado deles, trabalharão três líderes opositores: Nejib Chebbi, Ahmed Brahim e Mustapha Ben Jaffar. Em sua primeira mensagem à população, Ghannouchi afirmou que sua prioridade é retomar o controle sobre a polícia e garantir a segurança pública.

"Estamos decididos a aumentar nossos esforços para restabelecer a calma e a paz no coração de todos os tunisianos", disse. "Nossa prioridade é a segurança, assim como as reformas políticas e econômicas."

Segundo o premiê, as eleições serão realizadas em seis meses. Boa parte da oposição ao regime de Ben Ali criticou a presença no governo de ministros do gabinete anterior. No entanto, analistas tunisianos advertem que Ghannouchi, com apoio das Forças Armadas, não teria outra alternativa, já que os opositores ficaram 23 anos fora do poder e não teriam quadros para assegurar a transição até as eleições.

Nem mesmo o chefe do Parlamento, Fouad Mebaza, a quem caberia o direito constitucional de formar o novo governo, se opôs. "A escolha de Ghannouchi foi muito provavelmente negociada por todas as partes envolvidas, políticas e militares", disse o cientista político e membro da Liga Tunisiana dos Direitos Humanos, Larbi Chouikha. "Ele é a personalidade política mais íntegra e mais consensual aos olhos da maior parte da classe política tunisiana. Ghannouchi nunca foi atingido por casos de corrupção e nepotismo."

Além de reorganizar o país e abrir o caminho para a democratização, o novo governo terá de lidar com a pressão dos partidos islâmicos, mantidos na clandestinidade por Ben Ali, mas agora legitimados.

De Londres, Rached Ghannouchi, líder do Ennahda (Partido do Renascimento), exilado desde 1989, promete retornar nos próximos dias. Ao menos por enquanto, seu discurso também é de conciliação. "É a hora de os partidos políticos substituírem a ditadura por uma democracia. E eu preparo meu retorno", disse ao jornal The Times.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.