(Andrew Testa/The New York Times)
(Andrew Testa/The New York Times)

Premiê britânico Boris Johnson desafia oposição a convocar eleições

Primeiro-ministro do Reino Unido ameaçou convocar eleições caso Parlamento vote lei que impede uma saída da União Europeia sem um acordo

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2019 | 12h13

LONDRES - O primeiro-ministro do Reino UnidoBoris Johnson, entrou em uma nova queda de braço com o Parlamento britânico nesta quarta-feira, 4, após a derrota humilhante na véspera em sua tentativa para forçar o Brexit sem acordo com a União Europeia.

Os deputados britânicos vão votar nesta quarta-feira, 4, um projeto de lei para impedir uma saída da União Europeia (UE) na ausência de um acordo, como defende o premiê. Johnson desafiou o líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, a aceitar a convocação de novas eleições para resolver a crise nas urnas.

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Manobra do premiê Boris Johnson pode atrasar as discussões para a aprovação de um acordo amigável com a UE

Após assumir o controle da agenda parlamentar do governo, na terça-feira, 4, um grupo de opositores se preparava para apresentar e votar o projeto de lei que obrigará o Executivo a pedir um novo adiamento do Brexit, desta vez de três meses, até 31 de janeiro. 

O adiamento aconteceria caso não se chegue a um novo acordo com Bruxelas antes de 19 de outubro. O objetivo do texto é rejeitar a proposta de eleições antecipadas apresentada por Boris Johnson, cada vez mais pressionado.

Em meio à confusão, os dissidentes do Partido Conservador foram imediatamente expulsos da bancada parlamentar por Johnson, que respondeu pedindo a convocação de eleições legislativas antecipadas. 

Entre os expulsos, estão Nicholas Soames, neto de Winston Churchill, ídolo de Johnson, e o ex-ministro das Finanças Philip Hammond.

Para antecipar as eleições - previstas para 2022 -, o governo precisa do apoio de dois terços da Câmara dos Comuns e, nesta quarta, parecia longe de alcançar este número.

Os britânicos decidiram sair da UE com 52% dos votos na consulta popular realizada em junho de 2016.

Inicialmente previsto para ser concluído em março passado, o Brexit foi adiado duas vezes diante da rejeição do Parlamento ao Tratado de Retirada negociado pela então premiê Theresa May.

Johnson chegou ao poder em 24 de julho, com a garantia de que vai tirar o país da UE em 31 de outubro - com, ou sem, acordo.

Muitos deputados de todo espectro político temem as consequências de uma saída brutal do bloco, que deixará o país com escassez de alimentos frescos, medicamentos e outros produtos importados, ao mesmo tempo em que o fará perder milhões de dólares em exportações.

Determinados a conter Johnson, os deputados da chamada "aliança rebelde" votarão sua proposta em três turnos consecutivos e no mesmo dia. Eles correm contra o relógio, já que o premiê anunciou que suspenderá os trabalhos parlamentares entre a segunda semana de setembro e 14 de outubro. E o texto ainda precisar se aprovado pelos Lordes, a Câmara Alta do Parlamento.

Também nesta quarta, a mais alta instância judicial civil da Escócia declarou legal a suspensão do Parlamento decidida pelo primeiro-ministro. "Do meu ponto de vista, não há infração da lei", disse o juiz.

A decisão da Justiça traz um pequeno alívio para Boris Johnson, depois de uma terça-feira infernal, na qual perdeu sua maioria absoluta. Por 328 votos contra 301, foi aprovada uma moção que permite aos deputados assumirem o controle da agenda parlamentar, normalmente da alçada do Executivo.

Graças a esta moção, eles apresentam hoje, até o fim do dia, um projeto de lei que obriga o primeiro-ministro a pedir à UE um novo adiamento do Brexit para 31 de janeiro de 2020, caso nenhum acordo de retirada seja concluído com Bruxelas nas próximas semanas.

Nesta quarta de manhã, a maioria dos jornais britânicos afirmava que Boris Johnson "perdeu o controle" sobre o processo do Brexit.

Se os parlamentares dissidentes conseguirem impor um adiamento do Brexit, Boris Johnson submeterá à votação da Câmara uma moção para convocar eleições legislativas antecipadas.

Avaliando que um adiamento seria "uma capitulação", o primeiro-ministro desafiou o líder da oposição, Jeremy Corbyn, a apoiar a realização de eleições em 15 de outubro "para permitir ao povo deste país manifestar sua opinião".

"O nível de confiança em Boris Johnson é muito, muito baixo", declarou Keir Starmer, responsável pelo Brexit no Partido Trabalhista, principal sigla da oposição. "Queremos uma eleição geral", mas "não votaremos com Johnson hoje", disse ele à emissora ITV.

"A estratégia evidente para a oposição é deixar o governo cozinhar", avaliou o professor de Ciência Política John Curtice, da Universidade de Strathclyde. Segundo ele, é preciso esperar para ver "se Boris Johnson encontrará outros meios para organizar uma eleição".

 

Brexit sem acordo pode custar US$ 16 bilhões aos britânicos

Um Brexit sem acordo faria os britânicos perderem US$ 16 bilhões de exportações para a União Europeia, e vários outros bilhões para outros países – alertou a ONU hoje.

Em um estudo da Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e Desenvolvimento (Cnuced), os economistas da ONU indicam que uma perda do acesso preferencial “ao mercado da UE depois de um Brexit sem acordo causaria aos britânicos prejuízos em exportações de, pelo menos, US$ 16 bilhões, o que representa 7% das exportações totais do Reino Unido para o bloco”.

Os economistas destacaram que é uma estimativa conservadora, já que os prejuízos devem ser muito mais significativos, devido à introdução de medidas não tarifárias, controles fronteiriços e interrupção das redes de produção existentes entre Reino Unido e UE.

Segundo o estudo, os exportadores mais afetados serão os da indústria automotiva, bem como os setores de produtos de origem animal e têxteis. / EFE, NYT e AFP 

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