Vladimir Simicek/AFP
Vladimir Simicek/AFP

Premiê da Eslováquia é o primeiro líder mundial a cair devido à gestão da pandemia

Além da gestão da pandemia, crise política foi desencadeada pela compra escondida de seus parceiros de coalizão da vacina russa contra o coronavírus, a Sputnik V, ainda não liberada pela União Europeia 

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2021 | 16h42
Atualizado 30 de março de 2021 | 17h43

BRATISLAVA - O primeiro-ministro da Eslováquia, o populista Igor Matovic, e seu governo de centro-direita renunciaram nesta terça-feira, 30, para superar uma crise política causada por sua gestão da pandemia e pela compra escondida de seus parceiros de coalizão da vacina russa contra o coronavírus, a Sputnik V, ainda não liberada pela União Europeia

O eslovaco é o primeiro líder da UE e global a cair devido à gestão da pandemia, mas a medida vai manter a atual coalizão no poder e evitar eleições antecipadas, ainda que existam muitas incógnitas sobre seu futuro.

A presidente do país, Zuzana Caputova, designou o ministro das Finanças, Eduard Heger, para sucedê-lo durante uma cerimônia na capital, Bratislava, com a participação dos três políticos, transmitida ao vivo pela televisão eslovaca. "Quando um ano equivale a dez da sua vida (...). Foi uma honra e obrigado", escreveu Matovic no Facebook antes da cerimônia. 

Matovic assumirá a pasta das Finanças no lugar de Heger, o novo primeiro-ministro designado. Ambos pertencem à mesma formação populista - OLaNO. “É uma solução para a crise atual, mas não sabemos o que vai acontecer quando o novo governo for nomeado. Matovic vai manter uma posição forte (no Executivo)”, disse Grigorij Meseznikov, um analista do Instituto Político IVO (Bratislava), em entrevista à agência EFE.

Heger, de 44 anos, é um aliado próximo de Matovic no partido que chegou ao poder com a promessa de acabar com a corrupção, mas perdeu grande parte de sua popularidade após vencer com 25% dos votos as eleições legislativas de fevereiro do ano passado. Desde então, a Eslováquia passou a ser governada por uma coalizão de quatro partidos, o que frequentemente levava a lutas internas. Um partido da coalizão se retirou do governo na quinta-feira, dizendo que voltaria quando o primeiro-ministro renunciasse.

Vários membros do Parlamento se afastaram da coalizão de centro-direita e um deles, Tomas Valasek, expressou preocupação com o fato de que comprar a vacina da Rússia significava "cuspir na cara dos parceiros europeus", de acordo com a agência de notícias SME.

A presidente eslovaca pediu a renúncia de Matovic na semana passada, dizendo que era "perigoso e imprudente" para a liderança do país estar atolada em disputas em um momento em que a pandemia está dominando hospitais e profissionais de saúde.

O governo eslovaco está sofrendo as consequências de sua gestão errática da pandemia e, embora o país tenha saído ileso da primeira onda, enfrentou a segunda no último outono (norte) sem uma estratégia clara e consensual. 

A Eslováquia foi, por iniciativa do primeiro-ministro, o primeiro país do mundo a realizar, em dois fins de semana consecutivos no início de novembro, um teste a todos os habitantes com mais de 10 anos, o que permitiu o isolamento de mais de 50 mil pessoas que testaram positivo.

No entanto, essa estratégia, vendida como alternativa ao confinamento, não funcionou e não serviu para conter a propagação do vírus nesse país da Europa Central.

Além disso, devido à falta de coordenação e de um sistema de rastreamento e detecção de infecções, as novas cepas mais contagiosas da covid, como a mutação britânica, não puderam ser isoladas logo, o que desencadeou - durante a terceira onda - os altos índices de contágio e morte.

A Eslováquia, país da zona euro, com 5,5 milhões de habitantes, tem uma das maiores taxas de mortalidade por covid-19 e de contágios pelo coronavírus do mundo. Atualmente, a taxa de mortalidade é de 217 por 1 milhão, a terceira maior da Europa, depois da República Checa e Hungria.

Foi neste contexto de crise sanitária, com hospitais no limite, que Matovic tomou a decisão unilateral de comprar 2 milhões de doses da vacina russa ainda não homologada na União Europeia. Essa decisão foi criticada pela presidente eslovaca, que expressou que ela deixava subentendida uma orientação externa do país em relação à UE e à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). A medida desencadeou um processo de desintegração do governo, no qual seis ministros renunciaram em poucas semanas.

A Eslováquia administrou cerca de 14 mil doses de vacina para cada 100 mil pessoas, em paridade com países como Áustria, Suíça e Noruega. Matovic esperava acelerar a campanha do país comprando a vacina da Rússia, uma vez que a União Europeia não proíbe os estados-membros de conceder sua própria autorização de emergência para medicamentos que ainda não foram aprovados para uso em todo o bloco.

Mas os críticos não gostaram da ideia da Eslováquia ser a única nação da UE, além da Hungria, a usar a vacina não aprovada, nem decisão de Matovic de agir unilateralmente. A frustração com a forma como o país lidou com a pandemia já estava crescendo, motivada pelo que foi caracterizado como uma gestão "desastrosa" e "caótica". De acordo com uma pesquisa de 21 de março, mais de 80% dos eslovacos queriam a renúncia de Matovic./W.Post, EFE e AFP

 

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