Premiê da Espanha admite 'algo de verdade' na denúncia de corrupção

Pressionado por denúncias de corrupção, o premiê espanhol, Mariano Rajoy, reconheceu ontem pela primeira vez que existe "alguma coisa" de verdadeiro no escândalo envolvendo seu nome e o de líderes do Partido Popular (PP), o principal da base de sustentação do governo.

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2013 | 02h03

As declarações foram feitas quatro dias após as revelações feitas pelo jornal El País, que apresentou documentos indicando o premiê como um dos beneficiados por um esquema de financiamento clandestino patrocinado por empreiteiras privadas.

Rajoy já se havia manifestado no sábado, em Madri, e negado as denúncias. Falando em Berlim, ao término de um encontro com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, o premiê centrou seu discurso na crise econômica e nos esforços de seu governo para reequilibrar as finanças públicas. Só quando foi questionado pelos jornalistas ele abordou o escândalo. "Tudo o que se refere a mim e a meus companheiros de partido não está certo", disse. Mas ele reconheceu a seguir: "Salvo alguma coisa, que é o que tem sido publicado por alguns meios de comunicação".

Segundo analistas políticos espanhóis, Rajoy se referia às declarações feitas pelo presidente do Senado, Pío García-Escudero, que na semana passada confirmou a veracidade dos pagamentos feitos ao PP, alegando que "não há nenhuma ilegalidade". Mas, logo após fazer a declaração, Rajoy se corrigiu: "Dito de outra forma, tudo é absolutamente falso".

Um pouco mais cedo, quando questionado sobre se ainda teria legitimidade para seguir no cargo, ele insistiu em sua inocência e disse ter em plenos poderes para continuar no governo. "As coisas que me imputam são falsas. Assim o disse (no sábado) e assim o reitero hoje", afirmou.

Rajoy também garantiu que seu governo segue sólido, apesar das denúncias, demonstrou fidelidade aos correligionários envolvidos nas acusações e pediu união diante da crise. "O PP está fazendo uma política com base em reformas e está convencido de que vai conseguir que a Espanha saia da crise mais difícil que viveu nos últimos anos."

O governo conservador do PP enfrenta seu pior momento desde que assumiu o poder, em 21 dezembro de 2011. Isso acontece porque os nomes de Rajoy e de expoentes do partido como o ex-premiê José María Aznar e o ex-ministro de Finanças e ex-diretor-gerente do FMI Rodrigo Rato aparecem como beneficiários do chamado "Caso Barcenas". O escândalo envolve indícios de pagamento de comissões - a maior parte não declarada - a políticos do PP por empresários entre 1990 e 2008. Na contabilidade secreta do ex-tesoureiro do partido, Luis Barcenas, o nome de Rajoy aparece como beneficiário de um "mensalão" que teria chegado a € 25,2 mil por ano. Pela legislação espanhola, as "doações" seriam legais se tivessem sido declaradas ao Fisco.

Ontem, El País publicou detalhes sobre o caixa 2 que alimentou o PP. Nos documentos analisados pelo diário, de € 600 mil arrecadados de uma única construtora apenas € 144 mil apareceram na contabilidade oficial do partido. A diferença, suspeita-se, seria usada para o pagamento do "mensalão". Diante das novas denúncias, o líder do Partido Socialista Operário Espanhol, Alfredo Pérez Rubalcaba, voltou a pedir a demissão de Rajoy.

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