Premiê do Iraque é acusado de barrar armas para curdos

Rowsch Shaways, vice-premiê, critica novo governo iraquiano e se queixa de não receber armamento pesado enviado pelos EUA

LOURIVAL SANTANNA , ENVIADO ESPECIAL , KHAZAR, IRAQUE, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2014 | 02h03

O vice-primeiro-ministro curdo do Iraque, Rowsch Shaways, acusou ontem o premiê interino, Haidar al-Abadi, de tentar impedir o envio de armas dos EUA e dos países europeus para os curdos.

"Os primeiros sinais são negativos", disse Shaways, ao responder se o novo governo era melhor que o anterior, de Nuri al-Maliki, em entrevista exclusiva ao Estado, em seu gabinete montado perto da linha de combate com o Estado Islâmico (EI), em Khazar, a 40 km de Irbil, capital do Curdistão. "Ainda não senti nenhuma diferença."

Shaways, o mais importante representante curdo no gabinete iraquiano, disse que ainda não foi consultado por Abadi a respeito da formação do novo governo. "Nada aconteceu ainda. Muitas partes estão tentando acelerar o processo, mas o importante é formar um bom governo. Na nossa visão, o novo governo deve aprender com os erros do anterior. Deve haver um equilíbrio (entre xiitas, sunitas e curdos)."

Uma das maiores queixas dos curdos em relação ao governo de Maliki, que é do mesmo partido de Abadi, o xiita Dawa, era a sua recusa de repassar para os peshmergas, o Exército do Curdistão, parte do armamento fornecido pelos EUA, assim como uma fatia do orçamento de defesa.

Na sua visão, o avanço do Estado Islâmico ocorreu porque os curdos não têm armas pesadas, ao contrário dos jihadistas, que confiscaram armas dos Exércitos sírio e iraquiano. "E o governo central iraquiano continua tentando manter os peshmergas fracos", argumentou Shaways, vice-ministro para Economia do Iraque (há um sunita e um xiita, para Energia e Obras Públicas).

Ele se mostrou, no entanto, confiante de que receberão o armamento solicitado aos americanos e europeus - tanques, peças de artilharia, blindados e fuzis mais modernos: "Há promessas sérias. Esperamos receber armamento de qualidade o mais rápido possível". Ainda não está certo se serão doações ou compras. "Espero que sejam doações."

Shaways confirmou a retomada no domingo da maior parte da Represa de Mossul, por peshmergas depois de bombardeios aéreos americanos contra as posições do Estado Islâmico. Segundo ele, uma unidade de 25 veículos blindados do Exército iraquiano, comandada por um oficial curdo, participa da operação.

"Grandes áreas foram liberadas além da represa", afirmou Shaways. "Em geral os combatentes do EI estão fugindo sem resistir. Claro que há um risco em bombardear as proximidades da represa. Os bombardeios tiveram de ser muito precisos." Ele disse que o EI deixa bombas nos locais que ocupa, e por isso a área ainda está sendo limpa.

A retomada da represa, que havia sido ocupada no dia 7, foi o mais importante revés imposto ao EI desde o início de sua ofensiva, em junho. "É uma mudança na dinâmica do conflito", avaliou o vice-primeiro-ministro. O EI ocupou um terço do território iraquiano. O líder curdo admitiu que o próximo passo é a reconquista de Mossul, a segunda maior cidade do Iraque, que não pertence ao Curdistão: "A ideia é expulsar o EI de todo o Iraque". Ele afirmou que boa parte das áreas do Curdistão ocupadas pelo EI já foi recuperada, com exceção da região montanhosa de Sinjar, por sua "complexidade".

Sem querer entrar em detalhes. Shaways disse que há coordenação com os americanos a respeito dos alvos dos bombardeios: "Nós vemos do solo de uma forma diferente da que eles veem de cima. Juntamos todas as informações e eles as integram". O vice-primeiro-ministro, que coordena as operações no front, disse que não há forças especiais americanas atuando no terreno. À pergunta sobre quanto tempo a luta contra o EI ainda deve durar, ele respondeu: "O tempo que for necessário".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.