Kyodo/Reuters
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Primeiro-ministro do Japão renuncia após fracasso no controle da covid-19

No poder há menos de um ano, Yoshihide Suga registrava alta impopularidade, impulsionada pela oposição japonesa à Olimpíada; casos quintuplicaram desde início dos Jogos

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2021 | 03h17
Atualizado 03 de setembro de 2021 | 14h21

TÓQUIO - No poder há menos de um ano, o primeiro-ministro do Japão, Yoshihide Suga, anunciou nesta sexta-feira que não concorrerá à reeleição para a liderança do governista Partido Liberal Democrata (PLD), efetivamente renunciando ao comando do país. 

A decisão foi tomada pelo premiê após sua popularidade despencar nos últimos meses, um reflexo da sua criticada resposta à covid-19, cujos casos quintuplicaram desde o início dos Jogos Olímpicos, em agosto.

Suga tomou posse em 14 de setembro de 2020, pouco após seu antecessor, Shinzo Abe, o premiê mais duradouro da História japonesa, renunciar por motivos de saúde. Filho de um agricultor e antigo operador dos bastidores políticos japoneses, o primeiro-ministro com frequência parecia desconfortável sob os holofotes.

Sua saída, contudo, levanta temores de que o Japão volte à época de alta rotatividade na chefia do governo que antecedeu os quase oito anos de Abe à frente do Japão. Nos seis anos anteriores ao mandato do ex-premier, foram seis primeiros ministros diferentes. A tendência, contudo, é que não haja grandes rupturas políticas.

Apesar da grande troca de primeiros-ministros, o conservador PLD de Suga e Abe está no poder no Japão desde sua fundação, em 1955, com breves intervalos nos anos 1990 e no início da década de 2010. O partido agora precisará escolher um novo líder, que o guiará nas eleições gerais marcadas para 30 de novembro.

Em uma entrevista coletiva na tarde desta sexta (madrugada de sexta, horário do Brasil), Suga disse que deseja focar o restante de seu mandato no combate à pandemia, que já infectou mais de 1,5 milhão de japoneses e matou 16,2 mil deles. Grande parte do país, incluindo a região metropolitana de Tóquio, está em estado de emergência devido à alta incidência de casos e à falta de leitos.

Escolhas

Com a disputa pela liderança partidária marcada para começar no dia 17 e terminar no dia 29, o premiê disse ter percebido que precisaria fazer uma escolha:

“Eu ponderei concorrer, mas seria necessário uma energia imensa para [coordenar] medidas de resposta ao coronavírus simultaneamente a uma campanha eleitoral. Eu não posso fazer as duas coisas. Eu devo focar nas medidas anti-covid”, afirmou Suga, também afetado por uma campanha de vacinação que, apesar de já ter aplicado ao menos uma dose em 58% da população total e completado o ciclo vacinal em 47% dos japoneses, teve um início conturbado.

A aprovação de Suga havia caído da casa dos 60% no início do ano para menos de 30%, levantando preocupações sobre como seria o desempenho do PLD na próxima eleição geral. A pressão sobre ele, contudo, aumentou após a Olimpíada - segundo uma pesquisa divulgada pelo instituto Ipsos em julho, 78% dos japoneses eram contra a realização do evento naquele momento.

Desde então, os casos de coronavírus, dispararam no país. Quando os Jogos começaram, em 23 de julho, o Japão via em média 3.936 novos diagnósticos diários da doença. No último dia 26, o país viu seu pico de infecções em toda a pandemia, com 23.065 casos registrados. Com o endurecimento das medidas sanitárias, as novas infecções caem desde então, estando hoje na casa de 19,4 mil ao dia.

Disputa pela sucessão

Para analistas, a ascensão e queda de Suga também diz respeito ao timing: quando Abe anunciou sua renúncia, as lideranças partidárias não queriam uma disputa prolongada e pública, e rapidamente escolheram um sucessor para o cargo. Os pontos fracos de Suga, contudo, pesaram em seu desempenho, incluindo suas fracas habilidades de comunicação e pouco jogo de cintura em meio à crise.

Diante da incerteza, um de seus principais rivais, o ex-chanceler Fumio Kishida, anunciou no mês passado que disputaria a liderança do PLD. Desde então, Suga tentava articular apoios para manter-se no governo. Chegaram, inclusive, a circular boatos de que convocaria uma eleição geral antecipada ou reformularia seu Gabinete para buscar suporte dentro do partido, o que nunca chegou a ocorrer.

“Entraremos agora em um novo período de transição”, disse ao Financial Times o analista político Masatoshi Honda. “Vai levar um tempo até que nós consigamos ver um outro duradouro comandado com estabilidade por um grupo ou pessoa.”

Até o início da semana, Kishida era o único concorrente declarado à liderança do PLD, e ganhou o apoio das alas jovens do partido após declarar que demitiria o poderoso secretário-geral da sigla, Toshihiro Nikai, se fosse eleito. Sanae Takaichi, ex-ministra das Comunicações e uma das poucas mulheres a compor o governo de Abe, também demonstrou interesse em disputar o posto.

Horas após o anúncio de Suga, o mais progressista Taro Kono também disse que estava realizando consultas com seus aliados sobre uma possível candidatura. Popular nas pesquisas, Kono já liderou a Chancelaria e o Ministério da Defesa e atualmente está no comando do Ministério das Vacinas em sua resposta à covid-19.

Independentemente de quem for o escolhido, a vitória do PLD nas eleições gerais não parece estar em xeque. “Eu tenho certeza que muitas pessoas frustradas realmente querem votar em outro partido ou representantes que possam ter um desempenho melhor”, disse ao New York Times Tsuneo Watanabe, pesquisador da Fundação Sasakawa para a Paz, em Tóquio. “Neste momento, no entanto, não há uma alternativa forte para o PLD, e isso é um fracasso do sistema político japonês”, disse ele, referindo-se indiretamente às principais forças de oposição, que não conseguiram se reorganizar após serem culpadas pela má gestão da resposta ao desastre nuclear de Fukushima, há 10 anos.

Na época do desastre, estava no poder o opositor Partido Democrata do Japão (PDJ), de centro-esquerda, que ficou apenas dois anos à frente do governo. Desde então, a sigla sofreu diversas divisões, reduzindo ainda mais qualquer ameaça ao domínio de décadas do PLD em Tóquio. / AFP e REUTERS

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