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Premiê espanhol resiste

Ultradireita considera Sánchez um traidor que conspira contra a monarquia

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2019 | 05h00

Amanhã haverá eleições legislativas na Espanha, cujo governo, comandado pelo socialista  Pedro Sánchez, se demitiu em fevereiro por não conseguir aprovar seu orçamento para 2019. Naquele momento não se apostava muito em Sánchez, sobretudo porque o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) teria um novo adversário jovem e muito ambicioso, que tomava forma: o partido de ultradireita Vox, que, segundo as pesquisas, deverá obter pelo menos 12% dos votos e ingressará no Parlamento. Conseguirá ele, mediante alianças, ter peso sobre a composição do futuro governo?

Sánchez não é o tipo de pessoa que se deixa abater sem um combate. O título que deu a sua autobiografia lançada no início do ano seria mais apropriado a um militar ou a um revolucionário: Manual de Resistência. 

Esse chefe de governo, que dirigiu o país somente por dez meses e acreditava-se que estava derrotado, deverá obter o primeiro lugar na eleição, com uma votação confortável: entre 25% e 30%, segundo os institutos de pesquisa. E então? Isso quer dizer que os socialistas e Sánchez retomarão o comando? Não tão rápido. Mesmo que o PSOE consiga a maioria, a prova de fogo virá depois.

Sánchez dispensará alianças com outras agremiações para formar o governo? Nesse caso, os socialistas enfrentarão um inimigo tenaz e eficaz: o Vox, partido à direita da direita, que já agarrou algumas semanas atrás a Província da Andaluzia. 

O paradoxo é que o surgimento do Vox tem dois efeitos contrários para os socialistas. Ele congrega de um lado os espanhóis exasperados com a política migratória do PSOE e a virada à esquerda imposta por Sánchez. Além disso, a nostalgia dos tempos de Franco não desapareceu da consciência (ou do inconsciente) dos espanhóis. Inversamente, a violência com a qual o Vox há alguns meses ataca e achincalha Sánchez, tem levado alguns indecisos para o lado do ex-premiê.

Podemos julgar a dureza do combate lendo um artigo de Herman Tertsch no jornal ultraconservador ABC:  “É triste ver alguns eleitores de direita qualificarem o Vox como o grande culpado – a infelicidade suprema para a Espanha – se por acaso o socialista Pedro Sánchez, um político sem escrúpulos e desprovido de todo senso moral, tiver de novo uma maioria para governar(...). Um governo Sánchez seria uma catástrofe para a Espanha, e uma catástrofe potencialmente irreversível se o socialista vier a cumprir os compromissos que assumiu com forças que têm por objetivo destruir a democracia, a monarquia parlamentar e a unidade nacional. Sánchez é um traidor da Constituição da Espanha. Ele ocultou negociações que tiveram como efeito um ataque contra a monarquia e a transferência dos poderes soberanos para o governo catalão. Firmou acordos de cooperação com todos os inimigos da Espanha e da sua identidade histórica, como os golpistas catalães e os terroristas bascos que fazem campanha em favor dele – isso diz muita coisa.”

Em seguida, o polemista do ABC suplica aos partidos de direita para deixarem de lado suas divergências e se unirem contra Sánchez. O jornal chega a lançar um apelo aos socialistas que ainda acreditam na Espanha e se recusam a participar da “infame deriva do PSOE para os inimigos da nação e da democracia”. 

E eis sua conclusão: “Os três partidos capazes (Ciudadanos, Partido Popular e Vox) de pôr fim ao desmantelamento da Espanha por Sánchez devem vencer essas eleições e sua vitória poderá ser esmagadora, desde que vençam o medo que desde sempre atua em favor dos inimigos da Espanha”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É CORRESPONDENTE EM PARIS 

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