Premiê forte, Iraque frágil

Reeleito, Maliki é louvado por ter contido a violência e temido por centralizar o poder

LIZ SLY, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2010 | 00h00

Quando uma série de outdoors gigantes exibindo o rosto do primeiro-ministro do Iraque, Nouri al-Maliki, apareceu misteriosamente numa praça central de Bagdá algumas semanas atrás, a resposta do escritório de Maliki foi rápida e contundente. A polícia foi enviada para retirar os outdoors, que lembravam os enormes anúncios onipresente do regime de Saddam Hussein.

Se o premiê iraquiano tem tendências ditatoriais, como seus detratores alegam, essas não incluem a autopromoção ao estilo Saddam. Os assessores de Maliki dizem que o premiê ficou furioso e suspeitam que os outdoors foram instalados para desacreditá-lo num momento crítico das negociações de um novo governo. O objetivo: alimentar percepções de que ele é outro ditador iraquiano em formação.

Na terça-feira, quando Maliki assumiu novamente a cadeira de premiê, uma das principais questões colocadas à incipiente democracia iraquiana era exatamente se ele é esse homem forte. "Ele tem o potencial de ser um ditador", disse Faleh Jabar, que chefia o Instituto de Estudos Estratégicos do Iraque. "Esse é o meu maior medo, pois destruiria nossa democracia."

O combativo Maliki tem recebido o crédito por tirar o Iraque do caos e da guerra sectária. Agora, ele está destinado a comandar o país até depois da saída das forças americanas no fim do próximo ano. Nesse período, o papel americano no Iraque inevitavelmente será reduzido, juntamente com a habilidade de moldar o rumo político do país em direção à democracia - a justificativa central para a guerra.

Que Maliki tem uma tendência autoritária ficou amplamente demonstrado nos últimos quatro anos e meio, segundo seus críticos. Escolhido originalmente em 2006 como um candidato de conciliação supostamente fraco e maleável, ele se mostrou um operador político duro e implacável que subverteu astutamente o Parlamento para consolidar sua autoridade sobre muitas das novas instituições nascentes.

Em seu papel de comandante-chefe das Forças Armadas, ele substituiu comandantes de divisões do Exército por militares de sua confiança, colocou centros de comando provinciais sob seu controle e agiu para dominar as agências de inteligência. A muito temida Brigada Bagdá, subordinada diretamente ao escritório de Maliki, foi usada com frequência contra adversários políticos. A Anistia Internacional e a Human Rights Watch o acusaram de operar prisões secretas onde suspeitos sunitas foram torturados.

Forças centrípetas. Na lista de ministros do novo gabinete divulgada na terça-feira, faltavam as nomeações para a Defesa, Interior e Segurança Nacional. Maliki se autonomeou, em caráter interino, para os cargos. Alguns iraquianos veem isso como uma iniciativa de Maliki para apertar ainda mais seu controle sobre as forças de segurança.

"Vimos Maliki mover-se com magistral precisão para controlar o Exército, os serviços de inteligência e, depois, assegurar um controle ainda mais estrito sobre as armas civis do Estado", disse Toby Dodge, um especialista em Iraque do Queen Mary College, da Universidade de Londres.

Apoiadores de Maliki defendem seu comportamento como o de um patriota que só quer a estabilidade para seu país. Quando Maliki assumiu o cargo, em 2006, o Iraque estava descambando para o caos, sunitas e xiitas se massacravam nas ruas, e as forças de segurança do Iraque mal funcionavam, disse Sami al-Askari, um dos consultores próximos de Maliki. "Ele tem uma personalidade forte, mas não é um ditador."

Entre os que aumentaram seu respeito por Maliki está Ryan Crocker, embaixador americano no Iraque de 2007 a 2009. Nessa qualidade, Crocker encontrou-se várias vezes por semana com Maliki para supervisionar o reforço das tropas americanas e depois as negociações para um acordo de segurança que formulou os termos de uma retirada americana até o fim de 2011.

"A visão de Maliki é a de que o premiê precisa agarrar todo fragmento de poder, ou forças centrífugas intervirão e o Iraque ficará descolado", disse Crocker. "Ele tentará aumentar seu poder ao máximo. Mas acho que Maliki está a anos-luz distante de ser uma figura realmente autoritária ou ditatorial."

Com seus óculos de aros dourados e perpétua expressão ameaçadora, Maliki parece mais um mestre-escola rabugento do que um homem forte. No anúncio oficial de seu governo, na terça-feira, ele leu seu programa de 43 pontos com obstinada monotonia, como se estivesse irritado por ter de se explicar aos legisladores que aprovaram seu segundo mandato. Os que o conhecem dizem que ele confia em poucos fora de um pequeno grupo de consultores; um legado, talvez, dos muitos anos que passou na oposição a Saddam com seu então clandestino Partido Dawa.

Seu temperamento é lendário, mas ele também tem um senso de humor sardônico, segundo um ex-assessor.

O fato de Maliki ter conservado seu cargo é um atestado de suas habilidades políticas agudas e sua renomada tenacidade. Durante boa parte do impasse de nove meses que se seguiu à eleição em março, os beligerantes políticos sunitas e xiitas do Iraque só se uniram em sua oposição a um segundo mandato para Maliki, atestado também da antipatia que ele angariou durante seu esforço para consolidar a própria autoridade. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É CORRESPONDENTE EM BAGDÁ

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