Premiê iraquiano acusa site Wikileaks de tentar sabotar sua reeleição

Dados divulgados pelo site indicam que EUA ignoraram tortura praticada por iraquianos.

BBC Brasil, BBC

23 de outubro de 2010 | 16h12

Nouri al-Maliki questionou momento da divulgação de dados pelo site.

O primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki, acusou o site Wikileaks de tentar sabotar suas chances de reeleição, depois da divulgação de quase 400 mil memorandos militares secretos americanos.

Os dados indicam que as Forças Armadas dos Estados Unidos ignoraram casos de tortura praticada por autoridades iraquianas, além de trazer indícios de que americanos se omitiram diante de "centenas" de mortes de civis em postos de controle.

"Existem alguns interesses políticos por trás da campanha midiática que tenta usar os documentos contra líderes nacionais, especialmente o primeiro-ministro, e eles levantam uma série de questões devido à época de sua publicação", afirmou o gabinete de al-Maliki por meio de um comunicado, neste sábado.

O primeiro-ministro, que é xiita, tenta se manter no poder depois das eleições gerais ocorridas em março, que não tiveram um resultado claro.

Seus oponentes sunitas dizem que os papeis divulgados pelo Wikileaks destacam a necessidade de estabelecer um governo de coalizão, em vez de concentrar todo o poder nas mãos de al-Maliki.

Mortes de civis

O material divulgado pelo Wikileaks - considerado o maior vazamento de documentos secretos da história - comprova que os Estados Unidos mantiveram registros de mortes de civis, embora já tenham negado esta prática.

Ao todo, foram divulgados registros de 109 mil mortes, das quais 66.081 teriam sido civis.

O vazamento foi criticado pelo governo americano. Um porta-voz do departamento de Defesa afirmou que os documentos fornecem apenas observações de unidades táticas, contendo observações de "eventos trágicos e mundanos".

A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, também condenou a publicação e deu a entender que ele poderia pôr vidas em risco.

O governo britânico também condenou o vazamento. Por meio de uma nota, o Ministério da Defesa da Grã-Bretanha disse que as informações divulgadas pelo site ameaçam a vida de britânicos em serviço no Iraque, além de "tornar o trabalho das forças armadas em todos os teatros de operação mais difíceis e perigosos".

O ministério afirmou ainda que uma equipe irá investigar as denúncias de abusos por parte de funcionários britânicos no Iraque.

Julian Assange, fundador do Wikileaks, defendeu a divulgação dos dados e disse que deve acionar a Justiça com base nas informações contidas nos documentos.

Assange disse também que os documentos foram censurados de forma a não revelar "qualquer informação que possa ser prejudicial a qualquer indivíduo".

Tortura

Muitos dos 391.831 relatórios Sigact (abreviação de significant actions, ou ações significativas, em inglês) do Exército americano aparentemente descrevem episódios de tortura de presos iraquianos por autoridades do Iraque.

Em alguns deles, teriam sido usados choques elétricos e furadeiras. Também há relatos de execuções sumárias.

Os documentos indicam que autoridades americanas sabiam que estas práticas vinham acontecendo, mas preferiram não investigar os casos.

O porta-voz do Pentágono Geoff Morrell disse à BBC que, caso abusos de tropas iraquianas fossem testemunhados ou relatados aos americanos, os militares eram instruídos a informar seus comandantes.

"No nível apropriado, essa informação seria então dividida com as autoridades civis e militares iraquianas para que tomassem providências."BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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