AP/Gregorio Borgia
AP/Gregorio Borgia

Premiê italiano manobra para antecipar eleição e enfrentar populistas anti-UE

Estratégia de Renzi, que deve deixar cargo até sexta-feira em função de derrota em referendo constitucional, é aceitar nova votação antes de 2018, como quer oposição

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2016 | 05h00

Demissionário desde a noite de domingo, o primeiro-ministro da Itália, Matteo Renzi, intensificou nesta terça-feira a negociação no Parlamento para aprovar em regime de urgência a Lei Orçamentária de 2017 e em seguida antecipar as eleições para retornar ao poder. 

A manobra, que tem apoio de deputados do Partido Democrático (centro-esquerda), o maior do Legislativo, tenta acelerar o calendário político, aprovando também a reforma da lei eleitoral. A aposta do premiê é que os populistas e a extrema direita, isolados, não conseguirão maioria parlamentar para formar um governo.

A medida começou a ser executada na segunda-feira, quando Renzi encontrou-se com o presidente italiano, Sergio Mattarella, a quem apresentou sua demissão. Horas antes, o premiê havia perdido um referendo para reformar a Constituição, proposta rejeitada por 60% dos italianos. Cumprindo uma promessa, o líder de centro-esquerda renunciou ao cargo.

Nesta terça-feira, porém, sua estratégia para retornar ao Palácio de Chigi, sede do poder, ficou mais clara. Mattarella pediu a Renzi que permaneça no cargo ao longo da semana, até que a lei orçamentária seja apreciada pelo Parlamento – o que deve ocorrer até sexta-feira. O líder do PD deixaria de fato o cargo.

O presidente, então, iniciaria discussões com os maiores partidos da Câmara para a escolha de um premiê de perfil “técnico” para conduzir o governo até nova eleição. Os dois nomes mais cotados eram o do atual ministro da Economia, Pier Carlo Padoan, e o do presidente do Senado, Pietro Grasso.

Esse governo teria como principal tarefa atualizar a legislação eleitoral, que foi alvo de uma reforma em 2015, mas precisa ser alterada em razão do resultado do referendo, que manteve os poderes do Senado. Concluída essa reforma, segundo a estratégia de Renzi, novas eleições seriam convocadas.

Segundo o jornal Corriere della Sera, o premiê demissionário gostaria que a nova votação geral fosse já em fevereiro, mais de um ano antes do prazo máximo previsto na legislação. “Prevejo eleições em fevereiro”, confirmou o ministro do Interior, Angelino Alfano, líder do Novo Centro Direita, da coalizão no poder. Segundo ele, essa previsão foi debatida com Renzi.

Outros líderes do PD acreditam que o prazo mais realista seria abril. A aposta de Renzi e de seus assessores é que os 40% de votos que o premiê conquistou em favor da reforma constitucional não foram suficientes para vencer o referendo, mas seriam para retornar ao poder, em nova coalizão. O PD tem 300 deputados e governa em aliança com outros quatro grupos parlamentares que somam 82 votos. Assim, o premiê tem a maioria na casa, que soma 630 deputados.

“Tudo começou com 40% dos votos em 2012. Vencemos com 40% em 2014. Repartiremos com os 40% de ontem (domingo)”, afirmou o deputado Luca Lotti, secretário de Comunicação do governo, no Twitter.

A aposta de Renzi é de alto risco. A oposição populista, liderada por Beppe Grillo, do Movimento 5 Estrelas (M5S), e a extrema direita, conduzida por Matteo Salvini, da Liga Norte, também desejam a antecipação das eleições, para aproveitar a onda de rejeição a Renzi e à União Europeia, que impulsionou o voto em favor de legendas antissistema no referendo.

Para Francesco Galietti, analista de risco político da consultoria romana Policy Sonar, Renzi joga alto com receio de cair no ostracismo. “Renzi quer eleições o mais rápido possível, mas o problema é que não ocorrerão tão rápido. O mais cedo é provavelmente em maio ou junho.”

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