Premiê italiano renuncia e prepara candidatura

Bem-visto pelos mercados e líderes internacionais, Mario Monti tenta aglutinar forças da centro-direita para viabilizar chapa nas eleições de fevereiro

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2012 | 02h02

A Itália não tem mais primeiro-ministro. Minado pelo partido de Silvio Berlusconi, que lhe retirou apoio no início do mês, "Il professore" Mario Monti pediu demissão na noite de ontem, encerrando 13 meses de um governo tecnocrata, formado por especialistas para enfrentar a crise econômica. O afastamento, entretanto, deve ser provisório: no próximo domingo, o economista deve anunciar sua candidatura às eleições legislativas marcadas para fevereiro.

A demissão já era esperada desde que o Partido da Liberdade (PDL, de centro-direita), controlado por Berlusconi, anunciou o fim de seu apoio no Parlamento, no início de dezembro. Então Monti já havia prevenido a opinião pública e os mercados financeiros que renunciaria ao posto após a votação da lei orçamentária de 2013. A sessão da câmara de deputados italiana foi retardada até ontem, quando enfim o orçamento - com medidas de austeridade - foi aprovado.

A seguir, o premiê comandou o Conselho de Ministros, quando informou seus subordinados "de sua intenção de se dirigir ao presidente para lhe entregar a demissão do governo", segundo informou um comunicado oficial. Monti então deixou o Palácio de Chigi, sede do chefe de governo, e se dirigiu ao Palácio de Quirinal, onde o chefe de Estado, Giorgio Napolitano, lhe esperava. O economista apresentou sua demissão e a de seus ministros.

Com o intervalo pequeno até as eleições gerais, legislativas e senatoriais, marcadas para 24 e 25 de fevereiro, a tendência é de que o gabinete de Monti continue de forma interina até o pleito. A questão ontem, em Roma, era o destino do "professor", que deverá ser anunciado pelo próprio no próximo domingo, em uma entrevista coletiva já convocada. De acordo com os jornais Corriere della Sera e La Stampa, Monti deverá anunciar sua candidatura com base em um programa de reformas para a Itália, incluindo alterações da Constituição e na administração pública e a liberalização do mercado interno.

Monti recebeu nas últimas semanas o apoio de grupos de deputados democratas-cristãos e de empresários e investidores ligados ao presidente da Ferrari, Luca di Montezemolo - ele próprio potencial candidato nas eleições. O objetivo desses setores é organizar um programa que reúna o apoio de partidos de centro, centro-direita e centro-esquerda. Pelos cálculos de seus assessores políticos, ouvidos pelo La Stampa, o objetivo seria conquistar entre 15% e 20% dos votos nas eleições de fevereiro, permitindo abrir negociações para formação de um governo de coalizão.

Jogo político. O problema, segundo analistas italianos, é que Monti, economista, professor universitário e ex-comissário europeu, tem pouca experiência política para lidar com os dois partidos mais poderosos do país - além do PDL, o Partido Democrata (PD, de centro-esquerda).

Outro empecilho para Monti será enfrentar o favoritismo de Pier Luigi Bersani, secretário-geral do PD e candidato a primeiro-ministro, depois de ser indicado como tal pelos militantes, em 2 de dezembro.

Segundo os institutos de pesquisas, os democratas lideram a campanha, com 30% das intenções de voto. Em segundo lugar, viria a soma de votos do PDL e da Liga Norte (extrema direita), com 20%, que traria de volta ao poder o ex-premiê Silvio Berlusconi. Beppe Grillo, líder do movimento antiausteridade na Itália, tem 17% das intenções.

Criticado desde que anunciou suas intenções eleitorais, Berlusconi vem atacando Monti, afirmando que sua candidatura seria "moralmente contestável". Alheio à reprovação do empresário - investigado pela Justiça -, Monti tem a seu favor o apoio da comunidade internacional. Líderes como Barack Obama, nos Estados Unidos, Angela Merkel, na Alemanha, e François Hollande, na França, já manifestaram simpatia pela manutenção do professor no Palácio de Chigi.

Para enfrentar esse peso, Bersani vem tentando construir uma imagem de homem de Estado. Na quarta-feira, ele visitou Bruxelas, onde se encontrou com o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, e do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy.

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