EFE/EPA/BEHROUZ MEHRI / POOL
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Premiê japonês se reelege e promete mais gastos sociais e militares

Resultado fortalece Fumio Kishida, um tecnocrata ligado ao mercado financeiro, criticado pela falta de carisma

Redação, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2021 | 20h16
Atualizado 01 de novembro de 2021 | 02h51

TÓQUIO -O Partido Liberal Democrata venceu as eleições parlamentares de ontem no Japão e o primeiro-ministro Fumio Kishida declarou vitória. Com 253 deputados, o partido a manteve a maioria no Parlamento, contrariando pesquisas que indicavam a perda da maioria, apesar de ter feito menos cadeiras que na eleição anterior, em 2017, quando obteve 276. 

“Foi uma escolha muito, muito difícil, mas a vontade do povo - que quer que moldemos o futuro deste país sob o governo estável do PLD-Komeito e do governo Kishida - foi evidenciada”, disse ele.

O resultado fortalece mais ainda Kishida, um tecnocrata ligado ao mercado financeiro, criticado pela falta de carisma. O principal objetivo de curto prazo do premiê é aprovar o Orçamento do ano que vem, com gastos adicionais de defesa e proteção para as pessoas afetadas pela pandemia. 

Escolhido como primeiro-ministro no mês passado, e envolto em desconfiança em meio a sequência de líderes de pouco carisma que marcaram o Japão nos últimos anos, Kishida terá pela frente o peso político de ter de liderar os liberais após o pior resultado da legenda em anos.

Com pouco tempo no cargo, Kishida tinha os índices de aprovação em torno de 50% – os mais baixos em duas décadas. A aposta no perfil discreto do premiê pode ter custado alguns assentos cruciais no Parlamento. O secretário-geral do Partido Liberal Democrata, Akira Amari, renunciou ao cargo depois de perder a eleição para deputado. 

Nas últimas décadas, os votos contra o PLD foram divididos entre vários grandes partidos da oposição, mas desta vez cinco partidos rivais decidiram cooperar em uma tentativa de diminuir seu domínio. A aposta melhorou os números da oposição, mas foi insuficiente para tirar o PLD do governo. 

Apesar de Kishida não ter inspirado tanto a base do partido quanto seus antecessores, a burocracia partidária confia em seu nome para implementar suas políticas públicas. 

A eleição japonesa ocorre em meio à crescente instabilidade regional no Pacífico, com a tensão entre China e EUA marcando o acordo militar entre a Austrália, Washington e o Reino Unido e tensões diplomáticas envolvendo Taiwan. 

Nesse contexto, o Japão – um histórico rival dos chineses e aliado dos americanos – vê-se pressionado a abandonar a tradição pacifista em vigor desde a Segunda Guerra Mundial e aumentar gastos militares, especialmente depois da mudança na Constituição em 2014 que ampliou a possibilidade de uso das Forças de Autodefesa. 

Durante a campanha, Kishida elencou aumentar a defesa contra possíveis ameaças da China e da Coreia do Norte como uma de suas prioridades. Outra das metas do premiê é melhorar a resposta do governo à pandemia. Kishida se tornou líder do PLD há um mês, depois que Yoshihide Suga renunciou ao cargo após apenas um ano, em parte devido ao descontentamento público com sua resposta à crise da covid-19.

Após uma onda recorde de infecções que obrigou a realização dos Jogos Olímpicos de Tóquio a portas fechadas, os casos despencaram e a maioria das restrições foi suspensa.

Kishida, de 64 anos, prometeu criar um novo pacote de estímulo de dezenas de trilhões de ienes para conter o impacto da pandemia na terceira maior economia do mundo.

“Os eleitores japoneses têm demonstrado muito pouco entusiasmo pelo novo primeiro-ministro", avaliou Stefanel Angrick, economista sênior da Moody's Analytics. “Kishida terá que convencer o público e os jovens membros de seu partido de que a continuidade não implica status quo, mas manter o que funcionou e melhorar o que não funcionou.” Desde 2012, o PLD sempre ocupou pelo menos 60% dos assentos na Câmara Baixa.

E um desempenho ruim pode levar a perdas na votação para a Câmara Alta no próximo verão, arriscando um retorno ao histórico japonês de "porta giratória" de premiês, alertam analistas. Desde a Segunda Guerra Mundial, apenas cinco pessoas conseguiram permanecer cinco anos ou mais no cargo de primeiro-ministro, e algumas serviram apenas dois meses.

Um destaque da eleição foi o Partido da Inovação Japonesa, legenda nacionalista com base em Osaka que se tornou a terceira força do Parlamento, atrás apenas dos liberais e do Partido Democrático Constitucional, de oposição. 

“É um partido que tem tomado a região de Osaka e se destacado como parte importante do bloco conservador”, diz Yoichiro Sato, professor de relações internacionais da Universidade da Ásia Pacífico. “Eles vão tentar bloquear o plano de Kishida de diminuir a desigualdade entre ricos e pobres./ REUTERS, NYT e AFP

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