Premiê transcende a complexa política da Turquia

Resta saber só o tamanho da vitória de Erdogan no domingo

Anthony Shadid, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2011 | 00h00

Os gritos soaram de um terraço quando o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan percorreu altivo o rumo traçado pela campanha política na pitoresca cidade industrial de Bursa, antiga capital otomana. "Papa Tayyip!", diziam em coro. As palavras podem não ter o mesmo peso de um "Pai dos Turcos", título conferido a Mustafa Kemal Ataturk depois que ele fundou a Turquia moderna, em 1923. Mas dizem muito a respeito de Erdogan - arrogante e populista para seus detratores; carismático e visionário para seus defensores -, que logo iniciará sua segunda década como líder de um país que ajudou a transformar.

Conforme a Turquia se aproxima das eleições de domingo - nas quais a única dúvida é a dimensão da maioria dos votos que Erdogan receberá - o país enfrenta uma primavera árabe, que o apanhou de surpresa; ambições que vão além de seus meios; e o crescente temor de que os oito anos de Erdogan no poder tenham alterado definitivamente o equilíbrio de forças, favorecendo a classe comerciante, os migrantes e os excluídos que o partido dele corteja em detrimento da antiga elite secular.

Mas até os críticos reconhecem que este país de 79 milhões de habitantes é um lugar muito diferente daquele herdado por ele, emergindo como potência decisiva numa região há muito dominada pelos EUA. Apesar de a Turquia ainda sofrer com o desemprego, suas empresas estão prosperando. Na política externa, o país está agindo como o herdeiro do Império Otomano que o precedeu, construindo relações com o Irã e os vizinhos árabes à custa de Israel.

E nas antiquíssimas questões de identidade que assombraram a Turquia - curdos e turcos, seculares e religiosos - o partido governou numa época em que tais divisões parecem menos pronunciadas e possivelmente menos relevantes para um país em modernização.

Na Turquia, o poder eleitoral é o Partido Justiça e Desenvolvimento, de Erdogan, conhecido pela sua sigla em turco, AK, e assim as coisas têm sido desde 2002, quando o grupo venceu pela primeira vez as eleições. Mas a força incontestável no país é o próprio Erdogan, de 57 anos, ex-prefeito de Istambul.

Apesar de as pesquisas de opinião sugerirem que o partido dele ganha votos graças a uma campanha cuja mensagem retrata seus líderes como campeões da modernização, populistas e devotados guardiães dos pobres, Erdogan é muito maior do que o partido.

Uma pesquisa recente mostrou que metade dos votos para o partido é em apoio ao premiê, cujo mandato popular foi usado pelo AK para garantir a aprovação de reformas econômicas e desafiar o poder das antigas elites por meio de emendas constitucionais, dos processos nos tribunais e, segundo alguns, da intimidação. "Ele é, de fato, um fenômeno", disse Yilmaz Esmer, professor de Ciências Políticas da Universidade Bahcesehir.

Num comício realizado em maio em Koaceli, outra cidade industrial, Erdogan entrou num estádio lotado de simpatizantes demonstrando a ginga de um lutador. Uma multidão que o esperava havia horas caiu no êxtase.

Demagogo. "Não viemos para governar!" declarou ele. "Viemos para servir a vocês!" Trata-se de uma mistura de pregador de sexta-feira e demagogo das massas. Ele é muito religioso, mas seu discurso recorre pouco às imagens religiosas. Em vez disso, a mensagem trouxe a característica síntese de populismo, nacionalismo e moralismo de Erdogan.

"Gosto de Erdogan desde que ele era prefeito de Istambul", disse Mahmune Uyan, de 46 anos, dona de casa que levou os três filhos ao comício. "Ele tem sido como um irmão neste mundo e também no próximo", acrescentou. O estilo de populismo de Erdogan surgiu na Turquia nos anos 50. Diz-se que, quando jovem, ele vendia limonada e pãezinhos em Kacimpasha, e os moradores de lá o idolatram como seu filho favorito. No Saray Cafe, repleto de retratos de Erdogan, Yasar Kirici, o proprietário, insistiu que o premiê conhecia cada morador pelo nome. Na parede havia um retrato de Erdogan ao lado de Ataturk.

Os próprios traços autoritários de Erdogan - sua sensibilidade às caricaturas, seu desdém pelas críticas e suas tentativas metódicas de desmantelar a velha guarda da elite secular no Exército e nos tribunais - fizeram com que o partido perdesse parte do apoio liberal que atraiu inicialmente. Mas recentes pesquisas de opinião sugeriram que os próprios eleitores estão menos enamorados das antigas definições de secularismo e religiosidade num país em que Ataturk chegou a considerar a instalação de bancos nas mesquitas e a introdução de música clássica ocidental nos ritos religiosos. "As pessoas estão cansadas das velhas identidades, das divisões motivadas pelo nacionalismo e a religião", disse Selcuk Sirin, professor da Universidade de Nova York que contribuiu para a pesquisa. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É CORRESPONDENTE EM BEIRUTE

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