Premiê turco emerge como o ''Lula otomano''

Pragmático, Erdogan credenciou-se como 'a ponte entre o Oriente e o Ocidente' ao participar, com o Brasil, das negociações em Teerã

José Eduardo Barella, ISTAMBUL, O Estado de S.Paulo

23 Maio 2010 | 00h00

O primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, atropelou meses de planejamento do Itamaraty de transformar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no herói da negociação que poria fim ao impasse nuclear entre o governo do Irã e o Ocidente. Numa viagem-relâmpago a Teerã na semana passada, Erdogan acabou sendo decisivo para costurar o acordo e, de quebra, foi o primeiro a anunciá-lo.

"Erdogan tem a ambição pessoal de projetar a Turquia como uma potência política e econômica emergente", disse ao Estado o especialista Henri Barkeyl, do Carnegie Endowment for International Peace, nos EUA.

O senso de oportunismo e um incansável apetite de ocupar o espaço político dentro e fora do país estão levando Erdogan, de 56 anos e no cargo desde 2003, a despontar como a versão otomana de Lula - embora sem o carisma do brasileiro. Antes de viajar a Teerã, Erdogan recebeu em Ancara o presidente russo, Dmitri Medvedev, com quem assinou um acordo de US$ 20 bilhões para a construção de quatro reatores nucleares russos em solo turco.

No dia seguinte, liderou uma comitiva de dez ministros e mais de cem empresários numa visita histórica à vizinha Grécia - com quem Ancara mantém disputas territoriais no Mar Egeu e em Chipre. Pragmático, Erdogan propôs ao premiê grego, George Papandreou, reduzir os gastos militares dos dois países - que consomem cerca de 4% do PIB de cada um -, adiando as discussões sobre pendengas territoriais. Debaixo do braço, levou duas dezenas de acordo comerciais para dobrar em cinco anos o comércio bilateral. O discurso soou como música aos ouvidos de Papandreou, às voltas com uma crise financeira que ameaça a União Europeia.

Assim, em uma semana, Erdogan esboçou os três eixos da política externa turca. Ao aproximar-se da Grécia, reforçou o lema "problema zero com os vizinhos" adotado por seu governo. Os acordos com a Rússia ajudaram a ampliar os laços regionais e a reduzir a dependência da União Europeia, destino de 70% das exportações turcas. E, na visita a Teerã, o premiê turco enxergou no impasse nuclear iraniano uma brecha para ampliar o peso do país no cenário global.

Resistência. A ofensiva em várias frentes do premiê turco também mostrou uma nova posição de Ancara em relação à União Europeia - que resiste à adesão turca ao bloco, apesar de Ancara ter aberto a economia, estabilizado a moeda e convocado um referendo de reformas constitucionais democráticas exigidas pelos europeus para remover os privilégios da elite militar.

Cansados, os turcos já começam a buscar novos mercados - Erdogan vem ao Brasil esta semana com mais de cem empresários - e a alimentar um nacionalismo indisfarçável. "A restrição da União Europeia não é apenas pelo fato de o país ser muçulmano", assegura Mehmet Aykut Eken, vice-presidente da Tusiad, a federação das indústrias turcas. "Temos uma economia competitiva e uma população jovem de 70 milhões de pessoas; é isso que os europeus temem."

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