Premiê turco ganha presidência e põe em ação plano para governar até 2023

Projeto de Recep Erdogan é mudar Constituição para ampliar poderes do até agora figurativo posto de presidente, que ele assumirá dia 28

Agências

10 de agosto de 2014 | 15h42

Atualizado às 21h39
ISTAMBUL - O premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, ganhou ontem a primeira eleição direta para presidente da história do país. Caso ele confirme o plano de mudar a Constituição, leve para a presidência suas atuais atribuições e se reeleja em 5 anos, ficará no poder até 2023.
Erdogan, do islâmico Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP), obteve 52% dos votos, o suficiente para vencer no primeiro turno. O principal candidato de oposição, Ekmeleddin Ihsanoglu, teve 39%, enquanto Selahattin Demirtas, do pró-curdo de esquerda Partido Democrático Popular, teve 10%. A vitória do premiê já era apontada por pesquisas de opinião.

Ao ocupar o cargo de presidente no dia 28, Erdogan deixará aos 60 anos a função de primeiro-ministro, que assumiu pela primeira vez em 2003 - ele se reelegeu em 2007 e 2011. Na próxima escolha do primeiro-ministro, marcada para 2015, Erdogan não poderia concorrer. Ao assumir a presidência, pelas regras atuais, ele também deverá deixar o partido.

A Turquia emergiu como uma força econômica regional sob Erdogan que, como primeiro-ministro por mais de uma década, levantou uma onda de religiosidade conservadora para transformar a república secular fundada por Mustafá Kemal Ataturk em 1923 (ficou no poder até 1938). Seus críticos alertam que o presidente Erdogan, com suas raízes no islamismo político e intolerância de dissidentes, liderará o país membro da Otan e candidato à União Europeia justamente para longe dos ideais seculares de Ataturk.

As primeiras palavras de Erdogan após a vitória foram de reconciliação. “Quero ressaltar que serei o presidente dos 77 milhões de turcos, não somente daqueles que votaram em mim”, disse, pedindo em seguida “um período de reconciliação”. “Peço a todos que me chamam de ditador que revisem sua posição”, afirmou em seu discurso. Analistas políticos discutem quem será nomeado o novo primeiro-ministro com poderes reduzidos. Um dos nomes cotados é o do chanceler Ahmet Davutoglu.

Popularidade. A aprovação de Erdogan foi colocada em xeque em maio de 2013, com a resistência da população de Istambul à transformação do Parque Gezi em um centro comercial de estilo otomano. Durante três semanas, 3,5 milhões de turcos protestaram em centenas de cidades, desafiando a repressão policial.

As manifestações resultaram em oito mortos, mais de 8 mil feridos e milhares de prisões. Em dezembro, Erdogan acusou seus ex-aliados da irmandade do imã Fetullah Gulen de estarem por trás das acusações de corrupção contra o Executivo. Este ano, promulgou leis que reforçam o controle sobre a internet.

Segundo o professor Ilter Turan, da Universidade Bilgi, de Istambul, o apoio constante nas urnas teve o efeito paradoxal de incentivar as “tendências autoritárias” do chefe de governo. “Desde que chegou ao poder, o premiê foi mudando aos poucos das tendências pragmáticas para a autoritárias, do trabalho em equipe para as decisões pessoais, da democracia para o autoritarismo”, disse.

Tudo o que sabemos sobre:
TurquiaErdogan

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.