Premiê vê futuro ruim para China sem reforma

Em tom de despedida, Wen Jiabao alerta para o risco de uma nova Revolução Cultural no país

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2012 | 03h08

Entrando em seu último ano como primeiro-ministro da China, Wen Jiabao disse ontem que o país poderá voltar a experimentar "tragédias" como a Revolução Cultural (1966-1976) caso não adote reformas políticas, especialmente na estrutura de liderança do Partido Comunista e do governo.

Sem detalhar as mudanças, Wen ressaltou que elas também são necessárias para a "completa institucionalização" das transformações no campo econômico e a preservação dos ganhos obtidos nas últimas três décadas de reforma e abertura.

Desde 1978, a China embarcou em um processo de mudança que levou o país a se integrar à economia global e a registrar índices médios de crescimento de 10% ao ano. Quando Wen assumiu seu cargo, em 2003, o país estava em sexto lugar no ranking dos maiores PIBs mundiais. Agora, ocupa o segundo, abaixo apenas dos EUA.

Mas as transformações na economia não foram acompanhadas de abertura política. O Partido Comunista mantém absoluto controle do país e a perseguição a dissidentes intensificou-se desde o início de 2011, quando mensagens anônimas na internet convocaram os chineses para manifestações semelhantes às que têm derrubado regimes autoritários no mundo árabe.

"As reformas chegaram agora a um estágio crítico", afirmou Wen, na última entrevista coletiva de encerramento da reunião anual do Congresso Nacional do Povo, que é concedida pelo primeiro-ministro. No encontro do próximo ano, ele entregará o cargo a seu sucessor, que provavelmente será Li Keqiang.

Wen é visto como um dos representantes da ala reformista do Partido Comunista, que está longe de ser majoritária - a julgar pela estagnação das mudanças nos últimos anos. Muitos analistas acreditam que Wen e o presidente Hu Jintao beneficiaram-se de transformações aprovadas na gestão de seus antecessores, Zhu Rongji e Jiang Zemin, respectivamente. Entre as mudanças, está o ingresso na Organização Mundial do Comércio, em 2001.

O premiê ressaltou que reformas políticas são necessárias para enfrentar problemas que surgiram com o desenvolvimento econômico. Ele mencionou a desigualdade na distribuição de renda, a perda de credibilidade e a corrupção. "Cada membro e líder do partido deve ter um sentimento de urgência" em relação às reformas, observou Wen.

O líder comunista, porém, ressaltou que não é fácil realizar mudanças estruturais em um país de 1,3 bilhão de pessoas e alertou que o desenvolvimento da "democracia socialista" deve avançar "passo a passo", considerando as "circunstâncias nacionais" da China.

A entrevista coletiva é concedida a cada fim da reunião do Congresso Nacional do Povo. Apesar do grande número de jornalistas, não há surpresas para o primeiro-ministro, já que todas as perguntas têm de ser aprovadas previamente pelo governo.

A que mais provocou inquietação na plateia referiu-se ao escândalo que atingiu Wang Lijun, assessor de Bo Xilai, secretário-geral do Partido Comunista em Chongqing, que estava em campanha aberta para ocupar um dos nove postos do Comitê Permanente do Politburo - o organismo que detém o poder supremo na China.

Wang é alvo de investigação sob acusação de corrupção e o caso pode afetar seu ex-chefe. O acusado refugiou-se por dez horas no Consulado dos EUA em Chengdu, capital da Província de Sichuan, vizinha de Chongqing. Segundo Wen, o governo local deve "refletir seriamente e aprender" com o escândalo.

O dirigente de Pequim condenou as imolações 25 tibetanos na Província de Sichuan, realizadas em protesto contra as políticas chinesas para a região. "Deve ficar claro que o Tibete e as áreas tibetanas em Sichuan são parte integral do território chinês."

Wen acrescentou que o governo tibetano no exílio, comandado pelo dalai-lama, é uma teocracia, cujo objetivo é separar o Tibete e outras regiões tibetanas da China.

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