Facundo Arrizabalaga/EFE/EPA
Facundo Arrizabalaga/EFE/EPA

Preocupação nas prisões britânicas sobre o impacto do coronavírus

Taxa de novos casos em penitenciárias quase quadruplicou após descoberta de nova variante

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2021 | 03h00

LONDRES - Crescem as preocupações nas prisões da Inglaterra e do País de Gales sobre as possíveis repercussões a longo prazo da pandemia do coronavírus sobre os presidiários, apesar de as previsões mais catastróficas de contágio entre prisioneiros terem sido evitadas.

O número de casos positivos e mortes por covid-19 conseguiu ficar abaixo das previsões feitas no início da pandemia, graças à imposição de restrições.

Os presidiários recém-chegados são colocados em quarentena, aqueles com sintomas e com saúde mais frágil são isolados, mas ao custo de permanecerem em suas celas quase o tempo todo.

Alguns presos estão sendo mantidos "em condições que efetivamente equivalem a confinamento solitário", disseram quatro inspetores do sistema judiciário inglês na semana passada. E alertaram para as consequências da "falta de interação humana".

Há um "mal-estar profundo" entre os prisioneiros, "cronicamente entediados e frustrados", disse o inspetor-chefe das prisões, Charlie Taylor, a um comitê parlamentar.

Os presos relataram que sua saúde mental está sofrendo, e alguns estão recorrendo às drogas para lidar com a situação. "Eles se sentem desamparados e sem esperança" e "muitas vezes se descrevem como animais enjaulados", enfatizou.

No contexto da nova variante mais contagiosa do coronavírus descoberta na Inglaterra em dezembro, a taxa de novos casos na prisão quase quadruplicou. Foram registradas 24 mortes desde meados de dezembro, e o número de centros com surtos aumentou de 53 para 70.

Todas as visitas foram canceladas, e as prisões estão tentando aumentar o uso de videochamadas.

O sistema judicial também sofre as consequências: há um enorme acúmulo de processos aguardando julgamento e, portanto, mais presos provisórios.

Helen Dyson, da organização de defesa da justiça social Nacro, observa que os isolamentos não geraram motins e distúrbios como os vistos em algumas prisões do Reino Unido nos últimos anos. E acredita que isso se deva a "um consenso entre os presidiários de que isso está sendo feito pelos motivos certos".

Ela também alerta para o risco de um efeito indireto. "Não se pode negar que o fato de ficar trancado em uma cela 23 horas por dia tem impacto no seu bem-estar", explicou à Agência France Presse. É "muito tempo para se sentar com seus próprios pensamentos, preocupações e ansiedades".

"Escassez de pessoal"

O Reino Unido é o país da Europa mais duramente atingido pela pandemia, e suas prisões não estão muito melhor.

Mais de 100 prisioneiros morreram na Inglaterra e no País de Gales de covid-19, e quase 8 mil foram infectados, de acordo com estatísticas do Ministério da Justiça. Entre os servidores penitenciários, empregados de forma direta ou indireta, ocorreram 21 mortes e quase 3.200 casos positivos até o final de outubro.

No entanto, no início da pandemia, as autoridades temiam surtos explosivos em todas as 117 prisões inglesas, e algumas previsões alertavam para a possível morte de 2.700 presidiários.

Hoje, após semanas de infecções crescentes, "a escassez de pessoal está sendo sentida nos centros", alertam os sindicatos.

"Nunca enfrentamos nada parecido antes", explica Mick Pimblett, do sindicato POA, que representa 30 mil funcionários penitenciários. A organização pressiona para que seus membros sejam priorizados na vacinação.

"Acontece conosco o mesmo que com agentes de saúde e policiais, que trabalham com um elevado número de pessoas positivas ao covid, por vezes em espaços confinados e em ambiente mal ventilado", defende. /AFP

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