Preparados para o pior

Fracasso nas negociações de paz não deve causar violência, mas é preciso estar atentos

É MEMBRO DO SABAN CENTER FOR , MIDDLE EAST POLICY NA BROOKINGS , INSTITUTION, NATAN, SACHS, FOREIGN POLICY, É MEMBRO DO SABAN CENTER FOR , MIDDLE EAST POLICY NA BROOKINGS , INSTITUTION, NATAN, SACHS, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2013 | 02h08

Há cerca de um mês, participei em Jerusalém de uma 0conferência organizada pelo Yesha Council, a organização central dos colonos israelenses. Um dos oradores foi Naftali Bennett, líder do Partido Casa Judaica, de extrema direita, e ministro da Economia. Ele destacou um ponto: o conflito entre Israel e os palestinos é insolúvel.

Para enfatizar sua opinião, Bennett contou o caso de um amigo que prestou serviço militar e foi ferido por uma granada perto da espinha dorsal - "perto do seu traseiro", segundo Bennett. Suas palavras logo viraram manchetes. Os médicos disseram que poderiam operá-lo, mas com o grave risco de ficar paralisado nos membros inferiores. Ou poderia aprender a conviver com um problema desagradável, mas administrável.

A opção dos médicos era clara, disse Bennett. A opção de Israel é igualmente clara: em vez de procurar solucionar um conflito insolúvel com os palestinos e correr o risco de uma catástrofe, Israel deveria optar por medidas limitadas e práticas para administrar a realidade da Cisjordânia. A exclusão da ideia da solução de dois Estados talvez seja desagradável para os otimistas ocidentais, afirmou, mas a gravidade do conflito e o número de colonos que vivem na Cisjordânia impedem um acordo de paz. É uma história interessante, mas o paralelo de Bennett, na realidade, está errado.

A motivação do secretário de Estado John Kerry para tentar ressuscitar as negociações de paz foi semelhante. Kerry argumentou que se a solução de dois Estados não se concretizar logo - quem sabe nos próximos dois anos - talvez nunca mais seja viável.

Embora esperemos pelo melhor, e nos esforcemos por torná-lo uma realidade, devemos nos preparar para o pior. Se as negociações não derem certo, há o perigo de que as pessoas tomem as palavras do secretário em seu sentido literal e concluam que a porta da paz se fechou. Kerry precisa garantir que não pretende ajudar a convencer as pessoas de que Bennett estava certo.

O risco de fracasso é real. Israelenses e palestinos divergem a respeito das questões mais importantes e, principalmente, cada uma das partes suspeita que a outra participa das conversações com más intenções. A confiança dificilmente existe nestes dias na Terra Santa: o presidente palestino Mahmoud Abbas teme que o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, só esteja interessado no diálogo para diminuir a pressão internacional sobre Israel. Netanyahu suspeita que Abbas, para fazer frente à maioria da sociedade palestina que se opõe ao retorno à mesa de negociações, decidiu participar da reunião somente para não ser acusado pelo fracasso de Kerry.

A má notícia é que ambos podem estar certos. A criativa ambiguidade de Kerry, necessária para que as negociações deslanchassem, deverá implicar uma menção às fronteiras de 1967 como ponto de partida para as negociações. Isso permitirá que cada parte manifeste suas reservas quanto a esses parâmetros antes de começar a negociar. Em outras palavras, ambas as partes concordam em discordar, só que agora concordaram em fazê-lo na mesma sala.

Muitos temem que as expectativas frustradas possam causar um surto de violência e, como prova disso, apontam para a Segunda Intifada depois da cúpula de Camp David de 2000. Na tragédia sangrenta que se estendeu pelos quatro anos seguintes, mais de 4 mil pessoas perderam a vida. Mas ao estabelecer paralelos entre a atualidade e a Segunda Intifada corre-se o risco de extrair a lição errada. Os acontecimentos de 2000 em grande parte tinham a ver com a dinâmica interna e com as decisões de ambas as partes antes do colapso das conversações. As organizações palestinas - incluindo a milícia das bases da Fatah de Yasser Arafat - começaram a se preparar para a violência muito antes da decepção de Camp David. E os israelenses já estavam prontos para dar uma resposta dura. As circunstâncias são diferentes.

Mas, mesmo que um fracasso das negociações não leve a uma onda de violência, poderá provocar novas reivindicações do lado palestino pela dissolução da Autoridade Palestina. Os palestinos sentem-se desgastados com do processo de paz e existe um risco real de que prefiram cada vez mais as aspirações perigosas (e nada realistas) de uma "solução" de um Estado único. Há também o risco do aumento das exigências israelenses da anexação das partes desabitadas da Cisjordânia a Israel: Bennett, por exemplo, pediu a anexação da "Área C", que inclui todos os assentamentos israelenses.

Outras medidas temporárias, indubitavelmente difíceis, procurarão dotar o processo de paz de uma rede de segurança. Israel, por exemplo, poderá voltar à ideia de um compromisso limitado na Cisjordânia. Segundo tais planos, Israel sairia da maior parte do território sem um acordo final, estabelecendo suas próprias fronteiras. A administração dessa área então caberia provavelmente à Autoridade Palestina, como aconteceu na Faixa de Gaza quando Israel de lá se retirou em 2005. É importante que essas medidas sejam coordenadas com os palestinos - e não implementadas unilateralmente, como aconteceu em 2005. Os céticos (como eu) já se enganaram outras vezes. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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