Preparando o pós-Assad

Será difícil chegar a novas resoluções no Conselho de Segurança porque Rússia e China seguirão bloqueando iniciativas mais severas

O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2012 | 03h08

Artigo

Berço da Igreja Siríaca Ortodoxa (Antioquia) e dos califados dos Omíadas e dos Abássidas, Damasco era a capital do mundo árabe-cristão-islâmico. Sua fronteira estendia-se do Norte da África e sul da Europa, até a fronteira ocidental da China. Esses valores de riqueza histórica passam hoje despercebidos. A situação no país entrou em uma guerra civil dramática.

Os embates ingressaram numa fase distinta das etapas anteriores. A tática formulada pelos países árabes do Golfo e pelo Ocidente é pela implosão organizada do governo Assad com o intuito de fragilizar o establishment e elevar o número de deserções de líderes políticos e militares - além de eliminar seletivamente peças importante no aparato de defesa do regime.

A nova etapa foi inaugurada com a deserção do general Manaf Tlass e do embaixador Nawaf Fares, sedimentada por incentivos econômicos e garantias futuras na partilha do poder numa Síria pós-Assad. Tlass já está sendo preparado pela Arábia Saudita, e Feres pelo Qatar.

A deserção do premiê Riad Hijab também se encaixa na estratégia de forjar líderes que assegurem o cumprimento das agendas de Washington e dos sauditas. Não há confiança nos líderes do Conselho Nacional Sírio, com base na Turquia. Os EUA e a Arábia Saudita querem um governante compromissado em romper a relação estratégica com Teerã, o que não significa apenas o isolamento do Irã, mas, também, o enfraquecimento do Hezbollah no Líbano.

O cenário sugere uma mudança para seguir tudo como está, só que com uma coloração democrática. Washington não quer a assunção de islamitas revolucionários e os sauditas querem o fim do corredor xiita patrocinado pelo Irã. O líder ungido terá como tarefas essenciais não criar instabilidades com Israel, impedir que as armas de destruição em massa caiam nas mãos de jihadistas e evitar o fracionamento do Exército. Para tanto, uma estrutura centralizada e forte, como a construída pela família Assad, será bastante útil.

A renúncia de Kofi Annan como mediador era previsível, pois seu plano era inexequível. E na atual conjuntura será difícil chegar a novas resoluções no Conselho de Segurança. Rússia e China seguirão bloqueando iniciativas mais severas. Não estão dispostas a engolir uma derrota imposta por EUA, Grã-Bretanha e França.

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