Preparar, apontar, fogo

Obama deve ser cauteloso e só agir contra o Estado Islâmico com apoio internacional

Thomas L. Friedman/The New York Times, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2014 | 02h03

O presidente Barack Obama tem sido condenado por declarar que "os EUA ainda não têm uma estratégia" para enfrentar efetivamente o Estado Islâmico (EI). Ao criticar Obama por demorar demais, o deputado republicano Mike Rogers, presidente da Comissão de Inteligência da Câmara, disse no programa Fox News Sunday que "esta 'política de não fazer besteira' não está funcionando". Isto soou estranho aos meus ouvidos - como se devêssemos simplesmente bombardear alguém, ainda que isso fosse estúpido. Se Obama fizesse isso, o que estaria ignorando?

Primeiro, experiência.

Após o 11 de Setembro, esse tipo de abordagem "fogo, preparar, apontar" foi usado pelo presidente George W. Bush para ordenar uma guerra terrestre no Iraque sem forças terrestres suficientes para controlar o país, sem uma verdadeira compreensão da dinâmica sectária xiita-sunita no Iraque e sem nenhuma percepção de que, ao destruir o regime do Taleban sunita no Afeganistão e o regime baathista sunita no Iraque, os EUA estavam destruindo os inimigos do Irã e com isso abrindo caminho para uma vasta expansão da influência iraniana na região. Havia pressa para mudar as coisas depois do 11 de Setembro e, quando se está com pressa, ignoram-se complexidades que voltam para nos assombrar posteriormente.

Não há palavras para descrever a maldade da decapitação de dois jornalistas americanos mostradas em vídeo pelo EI, mas não há dúvida de que eles queriam que nós reagíssemos de maneira exagerada, à la 11 de Setembro, e nos precipitássemos de novo sem uma estratégia. O Estado Islâmico é abjeto, mas não é uma ameaça ao território dos Estados Unidos.

Segundo, o contexto.

Para derrotar o EI, é preciso entender o contexto em que ele surgiu. E este é o das três guerras civis que hoje assolam o mundo árabe: a guerra do Islã sunita entre jihadistas radicais e regimes muçulmanos sunitas moderados; a guerra em toda a região entre sunitas financiados pela Arábia Saudita e xiitas financiados pelo Irã; e a guerra entre jihadistas sunitas e todas as demais minorias da região - yazidis, turcomanos, curdos, cristãos, judeus e alauitas.

Quando se tem uma região abalada por tantas guerras civis de uma vez, isso significa que não há nenhum centro, só lados. E quando intervimos no meio de uma região sem centro, tornamo-nos muito rapidamente um lado.

O Estado Islâmico surgiu como uma expressão extrema de ressentimento de um lado: sunitas iraquianos e sírios que se sentiram afastados do poder e de recursos pelo regime xiita pró-iraniano em Bagdá e o regime xiita-alauita pró-iraniano em Damasco.

União nacional. É por isso que Obama fica insistindo que uma intervenção militar americana precisa ser acompanhada, para começar, por iraquianos produzindo um governo de união nacional - formado por xiitas, sunitas e curdos moderados - de modo que o uso da força dos EUA sustente o pluralismo e a divisão do poder e não apenas um poder xiita.

Mas uma divisão de poder não é fácil de alcançar numa região onde lealdades sanguíneas e sectárias sobrepujam qualquer senso de cidadania compartilhada. Mas, sem isso, a filosofia dominante oscila entre: "Sou forte, por que deveria fazer concessões?" ou "Sou fraco, como posso fazer concessões?" De modo que qualquer investida que façamos contra o EI, na falta de governos de unidade nacional, fará os xiitas dizerem a primeira e os sunitas dizerem a segunda. É por isso que a questão é complicada.

E esta é uma luta sectária por poder. Considerem um artigo do New York Times da semana passada sobre como o EI está sendo liderado por uma combinação de jihadistas e oficiais do Exército baathista iraquiano sunita que foram segregados tanto pelos EUA quanto por governos dominados por xiitas no Iraque.

O artigo observa: "Depois que o EI invadiu Mossul, uma autoridade iraquiana (xiita) lembrou de um telefonema de um general de uma das forças de elite de Saddam Hussein.

O ex-general havia pedido meses antes para ingressar no Exército iraquiano, mas a autoridade havia rejeitado. Agora, o general (sunita) estava lutando com o EI e ameaçando vingança. "Chegaremos até você em breve e vou picá-lo em pedaços", disse ele, segundo Bikhtiyar al-Qadi, membro da comissão que barra alguns ex-integrantes do Partido Baath de postos no governo.

Repitam comigo: "Chegaremos até você em breve e vamos picá-lo em pedaços". É com o que estamos lidando aqui - guerras civis múltiplas, venenosas, que são um terreno fértil para o câncer do EI.

Terceiro, os aliados dos EUA não são totalmente aliados.

Embora os governos da Arábia Saudita, do Catar e do Kuwait sejam pró-EUA, indivíduos sunitas ricos, mesquitas e organizações de caridade nestes países são fontes poderosas de recursos financeiros e combatentes para o EI.

Quanto ao Irã, se derrotarmos o Estado Islâmico, será a terceira vez desde 2001 que derrotamos um contrapeso sunita importante ao Irã - primeiro o Taleban, depois Saddam, agora o EI. Isso não é motivo para não fazê-lo, mas é uma razão para fazê-lo de modo a não nos distrairmos do fato de que o programa nuclear do Irã também precisa ser desarmado. Complicado.

Sou totalmente pela destruição do Estado Islâmico. É um movimento doente, desestabilizador. Apoio o uso de poder aéreo e de forças especiais americanas para eliminá-lo, mas somente como parte de uma coalizão, onde todos que tenham interesse na estabilidade local paguem sua cota e onde sunitas e xiitas moderados assumam a frente demonstrando que odeiam mais o EI do que se odeiam mutuamente.

Caso contrário, terminaremos no meio de uma confusão terrível de aliados dúbios e paixões sectárias - e nada de bom que fizermos será duradouro. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Thomas L. Friedman é colunista, escritor e ganhador do Prêmio Pulitzer.

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