Federico Parra / AFP
Federico Parra / AFP

Presença de López em embaixada trava formação de governo espanhol

Primeiro-ministro Pedro Sánchez atrai críticas da direita e da esquerda, de quem depende para formar uma aliança, por abrigar o opositor venezuelano na embaixada em Caracas

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2019 | 21h25

CARACAS - Ao hospedar  Leopoldo López na residência de seu embaixador em Caracas, a Espanha mergulhou de cabeça na crise da Venezuela, com implicações para a formação de um novo governo após as eleições no dia 28. Nesta sexta-feira, 3, o governo espanhol, liderado pelo Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), afirmou que não permitirá que sua embaixada em Caracas seja usada como um “centro de ativismo político” por López. Líderes políticos espanhóis viram na medida uma forma de censura. 

O ministro das Relações Exteriores interino da Espanha, Josep Borrell, disse que o governo limitará as atividades políticas do líder opositor venezuelano. O ministro especificou que, em função do direito internacional, a figura de “hóspede” na embaixada implica naturalmente uma limitação em sua atividade política. O líder opositor está acompanhado da sua mulher e dos filhos. 

Na sexta-feira, 3, López descumpriu a determinação e deu uma entrevista à agência EFE. Ele afirmou que a cúpula do poder mais próxima de Nicolás Maduro quer que ele deixe o cargo. “Há um claro interesse do seu entorno para que Maduro saia do poder. Ocorreram várias conversas, mas tem de ser um processo que garanta a integridade dos que hoje estão usurpando o poder.”

Na quinta-feira, López havia concedido entrevista a jornalistas na porta da embaixada. Ele é alvo de uma ordem de prisão, após ter escapado do regime de prisão  domiciliar, supostamente com a ajuda do Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin).

O governo espanhol disse na quinta-feira que não tem a intenção de entregar López às autoridades venezuelanas. A União Europeia, por sua vez, já pediu “respeito pela imunidade diplomática” na Venezuela, depois de a Suprema Corte venezuelana ter ordenado a prisão dele.

O envolvimento do governo espanhol na crise venezuelana desagradou aos dois campos do espectro político do país essenciais para a formação de um governo. O PSOE, liderado pelo primeiro-ministro interino Pedro Sánchez, venceu a eleição do dia 28, e obteve 123 cadeiras na Câmara, longe da maioria de 176 dos 350 assentos

O partido afirma que tentará governar sozinho, mas precisará formar uma aliança com uma das outras duas forças do país: a centro-direita do Ciudadanos, terceira força nacional, que conquistou 57 assentos, ou a esquerda radical do Podemos, que tem 42 cadeiras no Parlamento.

Luis Garicano, líder do Ciudadanos, criticou com veemência a “tentativa de silenciar” López. “Lamentáveis palavras as de Borrell. O PSOE volta a ficar indiferente diante da vulnerabilidade dos direitos humanos. Dar a oportunidade a Leopoldo López de se expressar não é ativismo político, é defender a liberdade onde mais se precisa.”

Já o líder da esquerda radical do Podemos, Pablo Iglesias, criticou o abrigo dado a López por parte do governo espanhol. “Guaidó não quer eleições livres – ele quer um golpe de Estado que provoque uma intervenção de Donald Trump e um banho de sangue na Venezuela”, disse Iglesias na quarta-feira. Ele também acha que Sánchez cometeu um erro ao reconhecer Guaidó como o presidente interino legítimo da Venezuela.

A oposição também se aproveitou da ocasião. A líder do Partido Popular, Dolores Montserrat, afirmou que o governo “deve liderar o apoio a uma transição democrática” na Venezuela e “não limitá-la”.

“Essa crise vai respingar em Sánchez, ainda mais a três semanas das eleições municipais, regionais e europeias no país”, afirmou à AFP Anna Ayuso, especialista em América Latina do Centro de Estudos de Assuntos Internacionais de Barcelona. “Por um lado, a direita exige que ele seja mais duro com Maduro e, por outro, a esquerda radical do Podemos, seus aliados mais prováveis, o acusam de apoiar os golpistas.” Segundo ela, Sánchez “deve manter uma posição crítica com Maduro mas, vendo as fraquezas que tem a oposição, deve negociar com ambos”, insiste.

A imprensa espanhola especula uma possível negociação para permitir que López viaje para a Espanha, onde já residem seu pai e outros opositores venezuelanos como o ex-prefeito de Caracas Antonio Ledezma.

“Maduro pode seguir uma estratégia muito castrista: abrir as portas para que os opositores fujam”, disse à agência France Presse Ernesto Pascual, doutor em relações internacionais na Universidade Aberta da Catalunha. “Tem uma vantagem, pois isso desmantelaria a oposição interna, mas também a desvantagem de formar uma frente compacta como o bloco cubano de Miami ou de criar um bloco venezuelano de Madri”, acrescentou./ AFP, EFE E BLOOMBERG

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